Sábado, quando Tom e Rica chegaram em casa, apos passarem a sexta-feira na casa da vovó, foram recebidos já no portão por Val.
- Preciso falar com vocês!
Quando a irmã fazia isso, é porque o assunto era sério. E não devia ser falado na frente da mãe.
E, como sempre acontecia quando isso ocorria, eles foram para o quarto da Val.
- O meu violino sumiu- disse ela.
A coisa é séria mesmo, pensou Tom, de 12 anos, o mais velho dos irmãos.E olhou para Rica, o de oito anos, terceiro da lista, Val era a segunda, com 10 anos.
Val havia ganho o violino do pai, dois anos atrás. E frequentava uma escola de música. O pai sempre dizia para ela tomar muito cuidado com o instrumento. Se ele soubesse que tinha desaparecido, ia ficar muito bravo.
- Mas como isso aconteceu, se você sempre deixa ele trancado na gaveta de baixo de seu armário? perguntou Tom.
- É isso que não entendo. Só eu e a mamãe temos as chaves.
Ela tinha decidido manter o violino trancado na gaveta por causa do Nico, de seis anos, o quarto da lista. Ele vivia querendo tocar no violino com os dedos, como se toca violão. Val cansava de explicar que violino se toca com o arco, uma espécie de vareta com fios de nylon ( ela odiava que se chamasse o arco de vareta). "Tocar com os dedo quebra as cordas". Mas Nico não acreditava. Então, o jeito era manter o instrumento trancado na gaveta.
- O Nico não pode ter pegado o violino, pois a chave da gaveta está sempre comigo- expicou Val.
- Ele pode ter pegado suas chaves quando você não viu- disse Tom.
Rica, que tinha a mania de ler histórias de detetives e vivia vendo séries de mistério na TV, afirmou:
- Isso é um mistério que a gente tem de resolver.Vamos organizar nossas idéias. Primeiro, vamos ver quem são os principais suspeitos. Quando foi que você pegou o violino pela última vez?
- Hoje cedinho, depois coloquei de volta na gaveta. E quando fui pegá-lo na hora do almoço, não estava mais.
- Então, eu e o Tom não somos suspeitos, pois quando o violino sumiu a gente ainda estava na casa da vovó.Pode ter sido o Nico, em alguma hora que você saiu. Você saiu?
- Eu saí para comprar pão.
- Então, nessa hora o Nico entrou no seu quarto, pegou a chave que você, que às vezes é cabeça de vento, deve ter esquecido em cima da mesinha, abriu a gaveta e pegou o violino. Depois, se distraiu com ele e quando você voltou da padaria, não teve tempo de colocar de novo na gaveta e deve ter escondido em outro lugar . Vai esperá-la sair de novo para recolocá-lo na gaveta, sem você ver.
Dando essa explicação, Rica fazia aquela cara de inteligente que os detetives fazem na TV.
- Então vou lá obrigar aquele danado a me devolver o violino! disse Val, irritada.
- Cama aí- interrompeu Tom, sempre mais sensato. A mamãe vive falando pra a gente nunca acusar uma pessoa sem provas.
- Então como vou saber se foi o Nico ou não?
- Tive uma idéia- disse Rica. O Nico está lá na sala. Val, você pega o celular da mãe e entra na sala fingindo que está falando com uma amiga do conservatório. Diz que a professora ensinou um jeito de tocar violino como se fosse um violão, sem quebrar as cordas.
Val atendeu a orientação. Assim que terminou o falso telefonema, Nico, que estava ouvindo, foi direto até ela.
- Isso é verdade?. Então agora me ensina a tocar o violino com os dedos.
- Pega lá, então, na gaveta do meu quarto.
Nico saiu correndo até o quarto de Valentina e voltou choramingando.
- Sua chata! O violino não tá lá.
Então, eles tiveram certeza de que não tinha sido o Nico quem pegou o instrumento. Senão ele não ia correndo buscá-lo na gaveta.
- E agora- perguntou Val meio desolada. Se não foram vocês dois, e não foi o Nico, quem foi?
- Sobram a mamãe e o papai- disse Tom.
- Você está maluco. Porque eles pegariam o violino sem falar comigo? - afirmou Val.
- A mamãe podia estar querendo fazer uma limpeza na gaveta, tirou o violino e depois esqueceu de por de volta , disse Tom.Vamos perguntar a ela.
- Mas ela falaria comigo. Além disso, sempre diz que as limpezas no meu quarto quem tem de fazer sou eu.
- E não vamos perguntar nada para ela, alertou Tom. Se não foi ela, também vai ficar brava, vai falar com o papai e a Val vai ficar mais encrencada ainda.
Então, Rica, fazendo de novo cara de detetive inteligente, apresentou outro truque para descobrir se a mãe tinha ou não desaparecido com o violino.
- Ela está na cozinha. Vai lá e diz que vai fazer uma limpeza no seu armário. Vamos ver como ela reage.
Val, de novo obediente, foi. Voltou, dizendo que a mãe não só concordou com a limpeza, , como mandou que ela pegasse um pano limpo na área de serviço.
-Então, ela não mexeu na gaveta- concluiu Rica É inocente.
- Bem- disse Tom. A gente não deve dizer para ela que o violino sumiu. Vai contar para o papai, pois eles vivem contando as coisas um para o outro.E o papai não vai gostar nada dessa hisória.Vocês sabem como ele vive dizendo para a gente ter cuidado com as nossas coisas.
Rica fez de novo aquela cara detetivesca e falou:
- Vou fazer umas averiguações por aí e, na hora do jantar, quando todo mundo estiver na mesa, vou resolver o caso.Até lá, não vou adiantar nada para vocês. Confiam em mim?
Val e Tom disseram que sim.
À noite, na hora do jantar, todo mundo na mesa, Rica falou, de repente.
- Pai, mãe: o violino da Val sumiu!
Val e Tom quase cairam das cadeiras. Não era para acontecer aquilo. Agora, o pai ia fazer aquele sermão, pensaram os dois.
A mãe, que estava dando papinha para Vicente, um dos gêmeos ( outro, Victor, estava dormindo), arregalou os olhos.
- Como assim o violino sumiu? perguntou e quase colocou a colher de papinha no nariz do Vicente, ao invés de na boca. O pai fez uma cara estranha.
Rica manteve a calma.
- Sumiu. Nós já eliminamnos os suspeitos. Não fui eu nem o Tom, nem Nico e nem a mamãe. Os gêmeos e o Martim, também não, pois são muito pequenos e não estão interessados em violinos, só naqueles chocalhos grudentos e aquele bumbo barulhento que ganharam no Natal.
- E quem foi então? perguntou a mãe.
- Foi o papai.
Foi a vez do pai arregalar os olhos.
- Eeeeeuuu?! E por que você acha isso?
- Porque você foi o único suspeito que sobrou.
O pai abriu, então, um sorriso estranho e perguntou:
- E quais são as provas contra mim ?
- Tenho só uma, mas é suficiente-disse Rica. Eu estava pesquisando por aí e olhei na mesa do seu escritório. Sabe o que achei ? Isso aqui.
E mostrou para o pai uma coisa parecendo uma linha, ou fio, branca.
- E o que é isso? perguntou o pai.
- É um pedacinho daquele barbante da vareta do violino.
- Não é barbante, é nylon. E não é vareta, é arco- interrompeu Val, sempre zangada com aquela mania de falarem errado os nomes das coisas de seu violino.
- Pois bem-continuou Rica.É uma prova de que o senhor andou mexendo no violino.
O pai olhou para todos, para a mãe, abriu um sorriso meio sem graça e disse:
- Você tem razão. Confesso. Fui eu mesmo. Um colega meu de serviço disse que queria comprar um violino para a filha dele. Mas não sabia que tipo de violino comprar. Aí eu resolvi levar o da Val para ele ver e ter uma idéia. Hoje, fui pedir o violino para a Val, mas ela não estava, tinha ido na padaria. Vi que ela tinha esquecido a chave da gaveta em cima da mesinha .Peguei o violino, mas ele escapou de minha mão e caiu. E arranhou um lado.
- Ja entendi, já entendi-- interrompeu Tom. O senhor, que vive dizendo para a Val ter cuidado com o instrumento, como ia se explicar agora, né?
- Pois é. Então, eu fui na oficina de sapato, no centrinho, para ver o que meu amigo sapateiro Haroldo podia fazer para tirar o arranhão.Ele fez o serviço rápido: lixou o arranhão e passou de novo um verniz. Como o verniz seca na hora, voltei logo para casa. .
- Aí o senhor foi colocar o violino na gaveta da Val, antes dela notar pela falta dele. Mas não deu tempo- disse Rica]
- Ela tinha chegado antes de mim da padaria e estava no quarto dela.Então, deixei o violino no guarda-roupas do meu quarto e estava esperando uma hora de entrar no quarto da Val sem ela ver. Punha o violino de volta na gaveta e ela nunca ia saber o que tinha acontecido.
- Mas nós atrapalhamos tudo porque ficamos a tarde quase toda no quarto, né?- lembrou Val.
Acabou de falar E saiu correndo para o quarto da mamãe e do papai e voltou com o violino, toda felIz. Parecia que tinha recuperado um gatinho perdido.
-E como é que se diz quando a gente faz coisa errada? perguntou a mãe, lançando um olhar bravo para o pai.
- Já sei, já sei. Peço desculpas e isso não vai mais se repetir.
Mais tarde, antes de irem dormir,Tom, Rica e Val se reuniram mais uma vez no quarto dela.
- Parabéns, grande detetive. Mas que idéia foi aquela de ir pesquisar na escrivaninha do papai? perguntou Tom.
- Eu não fiz isso.
- Como assim. E onde foi que você encontrou aquele pedaço de barbante da vareta?
- Barbante não, nylon! Vareta não, arco! cortou Val.
- Eu inventei aquela história- disse Rica. O fio que mostrei era um fio de linha dessas que a mãe usa para costurar. E ele , como se sentia culpado, nem se preocupou em pedir o fio para examinar. Já foi confessando.
- E porque você cismou que o culpado era ele?
-Era o único suspeito, lembram? Mas não digam agora para ele que usei o truque. Daqui a uns dois dias, quando ele estiver menos envergonhado e a mãe não estiver zangada com ele, a gente fala.
E os três riram.

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