sábado, 16 de novembro de 2024

O CASO DA MULHER QUE PEGAVA AS COISAS







Era época de festas de Natal e na escola o professor de Artes pediu para que os alunos formassem grupos e fizessem objetos de decoração para a data: árvores de Natal, presépios, estrelas de Belém ou outros tipos de enfeites. Depois, podiam levar os objetos para suas casas.

Tom, Val, Rica e Nico resolveram fazer um presépio. Como o presépio que eles planejaram era um pouco grande, o professor orientou que eles fizessem em peças separadas, porque inteiro seria ficar difícil levá-lo para casa. 

Assim, no dia de levar para casa, cada um levou uma parte. Rica ficou encarregado de levar o telhado do celeiro; Tom, que era o maior, ia levar o resto do celeiro. Nico ficou responsávl por carregar a manjedoura e a Val levaria as imagens de São José, Nossa Senhora, Menino Jesus e os  anjinhos.

Quando estavam perto do portão de casa, ouviu-se um grito:

- Rica,  tenho um album novo de figurinhas para lhe mostrar.

Era o Isaías, vizinho dos Lorenos, muito amigo do Rica. Este, que gostava bastante de colecionar figurinhas, principalmente de times de futebol, imediatamente parou. Os outros  irmãos entraram em casa.

Dona Lorena pediu que eles deixassem as partes do presépio na sala e fossem lavar as mãos, pois o lanche da tarde estava pronto.

- Onde está o Rica?- perguntou.

- Ele está lá na frente conversando com o Isaías- respondeu Val.

- É bom que ele venha logo, senão o lanche esfria.Eu fiz cachorro quente.

Logo o Rica apareceu, folheando um álbum de  figurinhas.

- Ei! Cadê o telhado do presépio? alertou Nico.

- Puxa! Esqueci lá fora! respondeu Rica. E saiu correndo.

Passaram-se alguns minutos e ele não voltava. Dona Lorena pediu para que alguém fosse buscá-lo. Nico,sempre mais esperto e rápido, foi. Encontrou Rica saindo da casa do Isaías e atravessando a rua, com uma cara preocupada. 

- O que aconteceu? perguntou Nico.

- O telhado do presépio desapareceu- respondeu Rica. Fui na casa do Isaías, para saber se ele tinha pegado,mas ele disse que não.

Entraram em casa. Rica relatou o caso para Val e Tom.

- Mas como isso foi acontecer?

- Quando o Isaías me chamou e falou do album de figurinhas, eu coloquei o telhado do presépio em cima do muro para poder folheá-lo. Ele disse que eu podia trazer para casa, para olhar com mais calma, depois eu devolvia. Eu fiquei tão distraído folheando que vim logo para casa e nem lembrei de pegar  o telhado em cima do muro. Quando voltei, ele não estava mais lá.

- Mas quem ia querer pegar aquilo? Ele só serve em nosso presépio. Além disso, é feito de isopor e alguns pedaços de madeira. Para quê serviria esse material ? perguntou Val.

- E se a gente se espalhasse e saísse pelo bairro procurando? convidou Tom.

- Nada disso- interveio Dona Lorena. Todo mundo vai lanchar e ninguém sai mais de casa hoje. Já está anoitecendo e não é hora de criança estar na rua. Vão procurar amanhã.

- Mas mãe- choramingou Rica- amanhã gente pode não encontrá-lo mais.

- Paciência. Depois vocês fazem outro telhado.

Obedientes, eles não insistiram. Mais tarde, na hora de dormir, no quarto dos meninos, Rica dirigiu-se ao Tom.

- Eu tenho uma idéia de quem pode ter pegado o telhado.

Quando ouviu isso, Nico, que estava lendo uma revistinha, se aproximou. Rica estava cam aquela cara de detetive inteligente que fazia quando decidia resolver um mistério.

- Quem é que vive rodando pelo bairro, sempre pegando tudo que vê pela frente, mesmo coisas que não servem para ninguém?

- A Dona Geru- responderam Tom e Nico quase ao mesmo tempo. Quem não conhecia Dona Geru? Era uma senhora sempre vista puxando um carrinho de compras, desses que têm em supermercados. Dentro dele. muitas tranqueiras.Coisas  que ela pegava pelas ruas, nas latas de lixo ou pedia para as pessoas. Podia ser uma vassoura sem cabo, ou um cabo sem vassoura, uma roda de carrinho, rolos de fio ou barbante. Quando ela passava perto de uma obra em construção, pedia alguma coisa para os trabalhadores, perdaços de madeira, tijolos, um pouco de cimento ou de areia.

Mas Dona Geru não era mendiga. Era viúva e  morava  em uma casa antiga, no fim da rua da Igreja. A casa ficava separada da igreja por dois terrenos baldios,cheios de mato. Por isso, ela era uma pessoa isolada. 

Andava vestida de um jeito esquisito, geralmente um roupão com capuz. Como, além disso, morava isolada, as crianças do bairro diziam que ela devia ser uma bruxa.

Rica apresentou um plano para os irmãos: no outro dia, na volta da escola, eles passariam na casa de Dona Geru, para perguntar se ela tinha pegado o telhado do presépio.

- Eu não vou- atalhou logo Nico.E se ela resolver transformar a gente em camundongos?

- Deixa de bobagem- disse Tom. Bruxas não existem. Não precisa ter medo.

Nico se convenceu. Afinal, se havia uma coisa que ele gostava era de uma aventura com os irmãos. No outro dia, na ida para a escola, explicaram o plano para Val, que também topou  participár.

Na volta da escola, foram direto para a casa de dona Geru. Como toda casa antiga, ela era grande, com muros altos. Tinha um quintal comprido na frente, coberto de mato. Entre o portão e a casa, passando no meio do mato, havia um caminho calçado de pedra. 

- Parece mesmo uma  casa de bruxa! murmurou Nico, quando se aproximaram.

Procuraram uma campainha para chamar a moradora, mas não havia. Então, Tom bateu palmas. Esperaram mas ninguém atendeu.

- Acho bom a gente ir embora. Dona Geru não está- disse Val, que parecia um pouco impressionada com a aparência do lugar. 

- É melhor a gente entrar e bater na porta- sugeriu Rica.

- E se tiver um cachorro?- alertou Val.

- Se tivesse, ele teria latido quando batemos palmas-tranquilizou Rica.

- E além disso, bruxa não tem cachorro, tem gato- brincou Nico.

Entraram, pois o portão não estava trancado.

Tom bateu na porta da frente, esperaram um pouco, mas também ninguém atendeu. 

- Vou bater mais forte- disse Rica. E quando bateu, a porta abriu. Ela não estava trancada. 

- Nos livros de história de mistério, as portas das casas velhas sempre abrem sozinhas. Acho melhor a gente ir embora- disse Val, ainda impressionada .

- Bobagem. Se a porta está aberta  é sinal de que dona Geru está em casa. Deve estar lá nos fundos e não escutou a gente. Vamos dar a volta.

E como sempre seguiam Rica quando esse falava alguma coisa com ar de inteligente , lá foram eles dar a volta na casa.Havia nos fundos uma área de serviço que, como toda casa antiga, se ligava à cozinha. Tom notou que a porta da cozinha estava aberta.

- Acho que ela está na sala- disse. Entraram devagar na cozinha e foran até a sala. Então, ouviram um grito horrível:

- Ghhgaaaa!

E viram, logo a seguir, uma cena aterrorizante. De costas para a janela da sala, que tinha uma cortina preta, e de frente para eles, dona Geru estava flutuando mais de um metro acima do chão. Balançava os braços e repetia:

- Ghhgaaaa! Ghgaahhhh!

As crianças sairam em disparada. Em poucos segundos passaram pela cozinha, pela área de serviço, pelo lado da casa e chegaram ao portão . Só quando estavam na esquina, pararam, cansados,mal podendo respirar.

- Eu não disse que ela era uma bruxa! Estava voando. Só uma bruxa pode voar daquele jeito- disse Nico.

- E que grito apavorante! falou Val.

Tom estava calado, pensativo. Rica disse, mais calmo:

- Tem alguma coisa estranha ali.

- É claro que tem!- interrompeu Nico. Tem uma bruxa voando e gritando ggghaaaa!  È bom a gente ir pra casa antes que ela nos persiga e nos transforme em camundongos.

- Eu acho que a gente deve voltar lá=- disse Rica.

- Não acho isso bom- afirmou Tom, sempre sensato.

- Mas acontece que notei uma coisa que pode explicar aquela cena esquisita.

" Só o Rica, mesmo, para notar alguma coisa no meio de uma cena de terror como aquela", pensou Val.

- Vamos voltar- insistiu Rica 

Rica estava com seu ar de detetive inteligente e quando ele ficava assim, os irmãos sempre o seguiam.

Chegaram na casa, desta vez muito mais cautelosos. Rica ia na frente,seguido por Tom. Depois vinha Val, uns três passos atrás e NIco, de olhos arregalados, atrás dela.

Quando entraram na cozinha, Rica pediu que eles ficassem mais para trás, pois seria mais fácil ele se aproximar da porta da sala sem serem notados.Ele chegou perto da porta, olhou para dentro e, de repente, ouviu-se, de novo, o grito horrível:

- Ghhhhaaaaa!!

Tom, Val e Nico sairam em disparada, mas Rica, não. Entrou correndo dentro da sala. Quando estava na área de serviço, Tom gritou:

- O Rica ficou lá dentro. Não podemos deixá-lo. 

E voltou. Val e Nico atrás dele. Estavam apavorados, mas não podiam abandonar Rica para trás.

Quuando entraram na sala, viram outra  cena apavorante: Dona Geru ainda estava flutuando diante da janela, mas, desta vez,  com Rica debaixo dela. Na hora, eles pensaram que Dona Geru tinha agarrado Rica. Partiram para cima dela para salvar o irmão.Então, Rica gritou:

- Parem! Alguém aí, levanta aquela escada do chão.

 Foi, então, que eles notaram uma escada grande, dessas de alumínio, caída no chão.

- Rápido. Tragam a escada para perto de mim.

Enquanto falava isso, Rica não saia de perto de Dona Geru. Tom, então,notou que não era Dona Geru que agarrava Rica, mas Rica quem segurava a Dona Geru pelas pernas. Pegou a escada e levou para perto dos dois.

Dona Geru apoiou uma perna nas escada e Rica a soltou.

O caso, então, ficou esclarecido. Dona Geru estava  colocando uma cortina nova na sala. Subiu na escada para encaixar umas argolas no varão. Nessa hora, ouviu um ruído na cozinha e se virou para saber o que era. Eram os irmãos. Ao se virar, a escada caiu. Mas ela não : o capuz que sempre usava, ficou enroscado no varão . Ela ficou dependurada. E as crianças pensaram que estava fLutuando.

- O capuz , como é costurado nos ombros do roupão dela, não a estava enforcando. Mas apertava um pouco seu pescoço. Por isso, ela não conseguia falar para pedir ajuda. Sufocada, so podia dar aquele grito feio para chamar a atenção- explicou Rica.

- Ghaaaa! repetiu Nico.

Dada as explicações,  levaram dona  Geru , que estava ainda meio sem ar, para a cozinha. Ela, depois de tomar um copo de água , ficou mais calma. E agradeceu aos meninos.

- Se não fossem vocês chegarem, não sei o que seria de mim.

Eles notaram que ela era uma senhora simpática, de olhos claros, dentes bonitos.  De perto, nem de longe lembrava uma bruxa.

- Mas, afinal, o que vocês vieram fazer em minha casa?- perguntou ela.

Tom respondeu:

- A gente queria saber se foi a senhora quem pegou o telhado do presépio que estava no muro de nossa casa.

- Entendi- disse Dona Geru. Todo mundo no bairro fala sobre minha mania de pegar coisas por aí. Sabem por que faço isso?

Ela explicou: era uma pessoa pobre. Vivia de um dinheiro de uma pequena aposentadoria deixada por seu marido. Então, pegava algumas coisas na rua, que não serviam para os outros, mas podiam servir para ela. Guardava-as em um quartinho dos fundos da casa, para ser usada em caso de necessidade.

- O quartinho, mesmo, foi construído com os tijolos, a areia, o cimento  e outros materiais que fui juntando durante anos.

E a informação mais importante, Dona Geru deu a seguir: sim, ela tinha pegado o telhadinho do presépio. Eles podiam levar.

Depois, indo para casa, os Lorenos comemoravam mais um caso resolvido.

- Esse foi, até agora, nosso caso mais importante- disse Nico.

- Por que descobrimos onde estava o telhadinho do presépio?-,perguntou Val.

- Não.Porque descobrimos que Dona Geru não é uma bruxa- respondeu Nico

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

UM ANIVERSÁRIO CHEIO DE SURPRESAS





Seu Lucas chegou em casa todo animado. Foi logo falar com Dona Lorena.
- Chegu o grande dia. O aniversário de 10 anos da Val.
- É uma data muito bonita pra uma menina- disse ela.
- Mas você explicou para ela que não faremos nenhuma festa como nos outros anos  porque precisamos fazer umas economias?
- Expliquei.
-Ela entendeu?
- Claro. Você sabe que a Val é, além de inteligente, muito sensata. Eu disse que faremos uma  comemoraçãozinha só entre nós e ela achou ótimo.
- Mas o que ela não sabe é que a comemoração deste ano vai ser a maior de todas- disse , eufórico, seu Lucas.
- Por que? Você ganhou na loteria? afirmou Dona Lorena.
- Nada disso. Você conhece o Breno Barone?
- E quem não conhece? Aquele famoso cantor.
- Você sabe que a Val é grande fã dele, né? Até toca musicas dele no violino, veja só.
- Ainda esta semana comprou um caderno com a foto dele na capa- lembrou D.Lorena.
- Pois então. O Breno Barone vem aqui em casa amanhã para cumprimentar a Val pelo aniversário.
- Você vai sequestrá-lo? perguntou D.Lorena sorrindo.
- Claro que não. É sério
E seu Lucas explicou: um dos  chefes dele era primo do cantor. E o Breno, justo no dia  do aniversário da Val, ia fazer um show na cidade . Então, em vez de ir para um hotel, resolveu se hospedar na casa do chefe.
- Eles são muito amigos, desde crianças, e não se vêem há muito tempo. Quando eu disse que a Val é fã do Breno, foi meu chefe que disse que o cantor poderia dar uma passadinha aqui em casa e cumprimentá-la. Já pensou que bela surpresa ela terá?
- Ficará muito feliz- disse Dona Lorena, que não disfarçou também sua satisfação porque ia receber um grande cantor em sua casa.
- Nós já combinamos tudo.  Meu chefe mora aqui perto. Entre  uma e duas horas da tarde, ele traz o Breno Barone aqui. 
- Então, temos que estar todos em casa- alertou Dona Lorena.
- Claro. O Breno vai vir disfarçado. Não pode correr o risco de ser reconhecido por alguém do bairro. Se isso acontecer, vai ser uma confusão danada.Uma mutidão vai cercar nossa casa.
- É verdade. Vamos avisar os meninos e pedir segredo para eles.

No outro dia, depois do almoço, Seu Lucas disse que ia até o posto de gasolina colocar óleo no carro, mas voltaria antes das duas horas. Tom e Rica também resolveram dar uma saidinha, mas era perto de casa. Iam  na casa de uns amigos da escola trocar umas figurinhas.
Em casa ficaram D.Lorena, Val, Nico, os gêmeos Vitor e Vicente, Martim e o bebê Antonio. 
Val estava na sala, consertando a argola da cortina e Nico assistia à TV quando tocou a campainha. " Eu atendo"- gritou Nico e disparou para o portão.
Segundos depois, voltou na mesma veocidade e foi direto para a cozinha,onde D.Lorena estava colocando glacê no bolo da Val.
- Mãe, acho que é o...o...o...
A mãe fez sinal de psiu! 
- Não fale o nome senão a Val vai ouvir. Mas como você sabe que é o...o...o...
- Aquela barba vermelha,aquele chapéu enterrado na cabeça e os óculos são uma coisa tão ridícula que só pode ser um disfarce.
Chegando no portão, ao ver o homem, Dona Lorena deu razão ao filho. 
- O Lucas já deve ter falado para a senhora de minha vinda. Eu sou o...o...
Antes que ele falasse, Dona Lorena fez sinal de psiu e convidou-o para entrar . Ela tinha medo que ele seu nome em voz alta, um vizinho ouvisse e começasse aquela confusão. 
Entraram na sala.  O visitante deu boa tarde para Nico e Val. Dona Lorena pediu que ele se sentasse no sofá. 
- Esses são meus filhos Nico e a Val ( e, ao dizer o nome da Val, deu uma piscadinha para o visitante). Meu marido saiu, mas já está de volta. O senhor quer um cafezinho?
O homem aceitou e ela foi para a cozinha. Nico ligou a TV, mas ficava mais olhando para o homem do que para a tela. Val continuava tranquila, consertando a argola da cortina.
Dona Lorena veio, serviu  cafezinho e voltou para a cozinha. Os minutos iam passando. Então, chegaram Rica e Tom. Viram o homem na sala e nem pararam: foram direto para a cozinha.
- Mãe-disse Tom- Esse aí deve ser o...o...o...
-É, é ele mesmo. Não fala o nome.
- Com aquele disfarce ridículo, eu vi logo que era- disse Rica.
- Vocês dois comportem-se com normalidade. Seu pai está para chegar e aí, então, o...o...o...vai tirar o disfarce e parabenizar  a Val.
Tom e Rica, depois de darem boa tarde para a visita, sentaram-se no chão e começaram a ver TV. Nico já estava trepado em uma potrona fazendo o mesmo.
Quinze minutos depois, quando D.Lorena entrou na sala para saber se o visitante não queria outro cafezinho, ele disse:
- Minha senhora, não posso esperar mais. Eu tenho um compromisso urgente mais tarde e  não posso me atrasar.
Dona Lorena, que lembrou que o cantor Breno iria dar um show na cidade vizinha, entendeu. Deu uma piscadinha para o visitante e falou:
- Então, o senhor pode cumprimentar a aniversariante- E apontou Val. As crianças levantaram-se para assistir ao grande momento. O homem com um ar meio abobado, olhou para Dona Lorena e disse:
- A menina está aniversariando hoje?
" Ele já está exagerando no disfarce", pensou Nico.
- Sim- respondeu Dona Lorena.
O visitante então,dirigiu-se a Val.
- Parabéns, minha querida.
Estendeu a mão para ela e, como Val é miúda, ele curvou-se para dar os tradicionais dois beijinhos. Neste momento, o boné dele caiu. E, surpresa: ele era totalmente careca!
"Isso é que é caprichar em um disfarce!", pensou Nico.
Tom e Rica olharam um para o outro, com um ar de riso. Dona Lorena ficou parada, com os olhos esbugalhados. O homem, após pegar o boné no chão,  dirigiu-se a ela:
- Bem, já vou indo. Avisa para o Lucas que depois eu falo com ele o que tinha de falar. 
- Mas então você não é o...o...o...?
O homem olhou-a sem entender nada.
Dona Lorena não sabia como reagir. Se dissesse para ele que ela pensava  que ele era o...o...o..., a Val ia descobrir o plano. Se perguntasse para ele quem ele era, o homem ficaria confuso. Afinal, ele achava que o Lucas já deveria ter dito para ela quem era ele.
Neste momento, batem na porta. " Dá licença" disse Dona Lorena e saiu correndo para atender. Era quem ela imaginou que era : o Seu  Lucas.
- Por que você demorou? Tem um homem aqui que eu pensei que era o...o...o... Mas não é. .E onde está o...o...o..? - dizia ela, toda atrapalhada.
- Calma, mulher, disse Seu Lucas. E apontou para um homem que estava a seu lado, cabeludo e com um grande bigode.  Deixa antes eu  apresentar o...
- Já sei! Já sei! É o seu chefe.
E , sem deixar Lucas responder, dirigiu-se ao homem:
- Cadê o...o...o... seu primo? Ele não vem mais?
Neste momento, Seu Lucas e o homem começaram a rir.
- Mas minha querida-disse Seu Lucas- esse é o...o...o...
De novo Dona Lorena arragalou os olhos.
- Não fala! Não fala o nome porque a Val está na sala. E aquele  outro homem também.
- Outro homem?- Disse Seu Lucas e olhou para dentro da sala.
- Ah! Mas é meu colega de trabalho, o Vermelho! A gente o chama assim por causa da barba ruiva. Esqueci que ele vinha aqui hoje para me falar sobre alguma coisa do serviço. Vamos entrar.
Então entraram. Lucas cumprimentou o Vermelho e desculpou-se pela demora. O Vermelho adiantou-se:
- Desculpa a pressa, mas eu tenho que ir. Vou pegar um avião para o Rio e não quero perder o horário. Depois eu te ligo.
Cumprimentou Dona Lorena, as crianças e, na porta, deu outro " parabéns" para a Val, que, a esta altura, já estava achando tudo meio movimentado demais." Quem era aquele outro homem esquisito que entrou com meu pai?", pensou.
Tom e Rica olhavam para a mãe, com umas caras parecendo pontos de interrogação. Ela fez um sinal de positivo e eles entenderam que, agora sim, era o...o...o...
O homem olhou para Seu Lucas, para Dona Lorena e perguntou:
- Posso, agora?
Eles concordaram com um sinal de cabeça.Então, ele se aproximou da Val e, quando todos esperavam que fosse tirar a peruca e o bigodão, puxou um pacotinho de presente  do bolso da calça e deu a ela. 
- Essa é uma lembracinha pelo seu aniversário. Espero que goste.
Val pegou o pacotinho e começou a desembrulhá-lo. Enquanto fazia isso, não olhava para a visita. O que estava embrulhado era uma caixinha e, dentro dela,  o presente: uma linda pulseira de prata, do jeito que ela gostava . Quando voltou a olhar para o homem, para agradecer, teve a surpresa: ele havia tirado o disfarce . E não era nenhum careca. Era o Breno Barone, que disse " Feliz aniversário!"
Por uns segundos, Val ficou paralisada, de boca aberta, como se não acreditasse no que via. Depois, abraçou o cantor. Todos ficaram alegres, emocionados e batendo palmas.
- Mas e o seu primo,o chefe do Lucas. Cadê ele? perguntou Dona Lorena.
- Foi por isso que demorei a voltar- apressou-se em responder Seu  Lucas. Meu chefe telefonou dizendo que não ia poder trazer o Breno, por causa de um problema de última  hora. Pediu para eu ir pegá-lo  na casa dele. Ele vai chegar aqui mais tarde.
Nem acabou de falar e tocou a campainha. Era o chefe do seu Lucas. Desta vez foi Nico quem foi ao portão. Ao entrar, o homem disse:
- Parece que cheguei em tempo.
E ele trazia um violão.
Então, tudo virou festa. Dona Lorena trouxe o bolo, doces e refrigerantes; cantaram parabéns a você. Depois, Breno cantou umas músicas. Quando soube que Val tocava músicas dele no violino, pediu para ela tocar. Meio encabulada, ela tocou e ele a acompanhou ao violão.
Tiraram fotografias. Após dar autógrafos para todos, o cantor se despediu.
-Foi uma delícia isso tudo. Eu fiquei tão feliz quanto a Val - disse. Gostaria de ficar mais tempo, mas vocês sabem:  havera show à noite e tenho de chegar antes, para os últimos preparativos.
Quando Breno, após se despedir , encaminhava-se para a porta, Nico deu o alerta:
- Ei! Coloca a peruca e o bigodão de novo, senão, antes de chegar no carro, você vai ser estraçalhado pela mulherada do bairro.
Breno agradeceu e, após colocar o  disfarce, foi embora. Só foi ele sair e  Val atirou-se nos braços do pai.
-O senhor é o melhor pai do mundo. Nunca vou esquecer esse aniversário.
Seu Lucas, após receber, emocionado, os cumprimentos da filha, fez uma cara preocupada.
- O que foi?-perguntou Dona Lorena.
-Preciso ligar para meu amigo, o Vermelho, e explicar tudo o que aconteceu enquanto ele estava aqui. Senão, ele vai pensar que eu tenho a família mais maluca do mundo.
Não teve quem não risse da preocupação do Seu Lucas.

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

O TESOURO PERDIDO DO LAGO DAS PACAS




Um amigo do Seu Lucas, o Aderbau, tinha herdado de uma tia, falecida recentemente, um sítio em Jundiaí. Fazia uns 10 anos que ele não ia no sítio e pretendia passar o próximo feriado prolongado lá. Convidou Seu Lucas para ir também, com a família.

Quando Dona Lorena soube disso, ficou contente. Seria um feriadão diferente para ela, o marido e as crianças. Mas não seria muito interessante levar os pequenos- os gêmeos, o bebê Antonio e o Martim. 

-Eles não se divertirão tanto e eu tenho medo que eles sejam atacados por bichos e insetos que costuma ter em sítios- disse.

- São só dois dias. A gente vai no sábado e volta na segunda de manhã. Os pequenos podem ficar com a vovó e o vovô, tranquilizou Seu Lucas.

Ficou tudo combinado.No sábado, cedinho, partiram para Jundiaí. O colega do Seu Lucas já tinha ido na sexta-feira à noite e ia esperaria por eles no sítio.

Quando chegaram, ficaram deslumbrados com a beleza do lugar. Da estrada, podiam ver quase todo o sítio porque ele ficava em uma espécie de colina. A casa principal ficava lá no alto. Do lado dela, havia outra casa, menor, que era onde morava o zelador do sítio, o Seu Chico. Mais distante, do lado direito, um barracão de madeira e mais acima uma plantação de laranjas. E, o que mais chamou a atenção da Valentina, Tom, Rica e Nico: havia um belo lago mais embaixo.

- Puxa! Vai dar para a gente pescar!- disse Nico, entusiasmado.

Foram recebidos na casa principal pelo Seu Chico e pelo colega do Seu  Lucas. As crianças já queriam ir explorar o sítio. Mas Dona Lorena alertou:

- Ainda não. Vamos primeiro arrumar as coisas que trouxemos, se lavar. Depois, precisamos ser educados: nos apresentarmos às pessoas que estão nos recebendo, conversar um pouco com elas. Não é só chegar e sair correndo por aí. 

- Além disso, vocês não conhecem o sítio. Precisam ser acompanhados por um adulto. Então, as explorações só serão feitas depois do almoço, quando eu e sua mãe estivermos sem nada para fazer- completou Seu Lucas.

- Quanto a isso não se preocupem- disse Seu Chico. Depois do almoço, meu filho, o Chiquinho, que conhece tudo por aqui, vai estar em casa. Ele foi passar a manhã na casa da avó dele, aqui perto. É da idade das crianças e tenho certeza que elas preferirão a companhia dele do que de adultos.

- Combinado- disse Dona Lorena.


Depois do almoço, tudo arrumado, todo mundo descansado, apareceu o Chiquinho, filho do Seu Chico. Era um garoto de uns nove anos, com uma cara alegre e esperta.

Logo, ele mais os irmãos saíram pelo sítio. Nico insistia em ir primeiro até o lago. Concordaram. Ao se aproximarem da margem, viram uns bichos se mexendo no outro lado.

- São pacas. Tem bastante por aqui. Elas vivem na beira da água, onde fazem suas tocas.

Os irmãos nunca tinham visto uma paca ao vivo e quiseram logo ir até perto delas.

- Não adianta. Elas são muito ariscas- explicou Chiquinho. Quando a gente chegar do lado de lá, elas terão corrido para o lado de cá. Ou então, vão se enfiar nas tocas.

Decidiram, depois, ir para a plantação de laranjas.

-Os frutos estão maduros e tem tambem pés de mexirica. A gente pode pegar algumas- revelou Chiquinho.

Depois de percorrerem a plantação e pegaren mexiricas,que sairam chupando, foram para o barracão.

- Para que serve ele? perguntou Rica.

- Servia de garagem para o trator, que foi vendido quando o dono do sítio faleceu. Agora, virou depósito de muitas coisas.

- Podemos entrar nele?- peguntou Tom.

- Podemos,mas não mexam em nada. Meu pai não gosta.

Entraram no barracão. A porta era presa apenas por uma tranca de madeira, por fora. Fácil abrir.

Lá dentro estava cheio de tranqueiras. Ferramentas de se usar na roça, como enxadas, pas, foices; arreios e selas de cavalos, duas camas velhas, daquelas antigas, de mola; uma cadeira quebrada, um armário meio torto encostado na parede.

Rica abriu a porta do armário e ele tinha livros antigos, empoeirados; cadernos e revistas velhas.

Feita a visita ao galpão, decidiram voltar para a casa grande, pois era hora do almoço e o pessoal já devia estar procurando por eles. 

Antes de entrar na casa, Rica chamou Tom de lado.

- Veja o que achei naquele armário, dentro de um daqueles livros antigos.

E mostrou ao irmão uma folha de papel, amarelada pelo tempo, com alguns desenhos. Tom examinou-a e devolveu-a a Rica.

- E o que você acha que esses desenhos significam?

- Depois que a gente almoçar, no quarto, com mais calma eu te explico.

O papel trazia uma espécie de mapa do sítio. Em alguns pontos estavam escritos os nomes dos locais. Assim, havia um risco, com uma seta na ponta, que partia do local escrito "portão de entrada"e  ia até "casa grande". Dali, partia outra linha igual para onde estava escrito "galpão". Deste local, novo risco ia até o trecho identificado como "lago"onde  havia o desenho de um quadrado com a palavra "caixa da bomba" e um grande xis em cima dela.

- Então- disse Tom- você pode me explicar o que isso tudo quer dizer?

- Você não está vendo que isso pode ser um mapa do tesouro? De alguma riqueza escondida?

- E o que te levou a concluir isso?

- Bom, além de ser um papel muito velho, tem esse xis grande. Isso, nos mapas de tesouro, só pode significar o local onde deve ser escavado para encontrá-lo.  Que tal a gente escavar esse tesouro?

- Você está doido? E o que o amigo do papai vai achar disso? E o Seu Chico e, o que é pior, o papai e a mamãe? - respondeu Tom, sempre cauteloso.

- Ora, eles não precisam saber. Tenho um plano.

E Rica explicou seu plano: eles sairiam cedo, dizendonque iam pegar mexirica. Diriam aos pais que não precisavam que o Chiquinho os guiasse porque já conheciam o caminho. Lá na plantação, onde ninguém os podia ver, por causa das árvores, iriam até o galpão.

- Fazer o quê no galpão- perguntou Tom.

- Pegar ferramentas. Você não viu, lá, ontem, pas e enxadas? Depois a gente vai até o lago fazer as escavações.

Tom ficou de expicar o plano para Val e o Nico. 

No outro dia, bem cedo, logo depois do café, deram início ao combinado. Sairam em direção ao sítio mas, 10 minutos depois, com uma pá e uma enxada, estavam na margem do lago. 

- Está vendo aquela caixa de tijolo ali. Deve ser o lugar onde aparece escrito no mapa " caixa da bomba. É ali que tem o X. Vamos começar a cavar. E começaram: Tom, mais forte, cavocava com a enxada e Rica tirava o material que ele escavava com a pá. Val e Nico observavam e, conforme o combinado, ficavam na frente deles. Assim, se alguém os olhasse lá da casa grande, não veriam o que Tom e Rica estavam fazendo .

- Parece que bati em alguma coisa dura- disse Tom. Rica, então,  puxa a terra com a pa.

Quando Rica puxou, alguns objetos sairam junto com a terra fofa. Ele mexeu no material com a pa.

- Essas coisas duras parece que são ossos.

Ao ouvir isso, Val deu três passos para trás.

- Santo Deus! gritou.

Tom voltou a escavar e disse para Rica:

- Acho que aqui tem um esqueleto.

- MInha Nossa Senhora- gritou Val e saiu apressada em direção à casa grande. Nico atrás dela.

- Volta aqui, Val! gritou Tom.

- De jeito nenhum, respondeu ela. Vocês conhecem aquelas hisórias de piratas? Depois que enterravam o tesouro, matavam e enterravam junto um companheiro deles, que era para ficar uma maldição no lugar. Deve ter acontecido isso aqui. 

Na frente da casa grande, estavam Dona Lorena, Seu Lucas, Seu Chico e o Aderbau. Quando viram Val chegar correndo e meio assustada, com o Nico atrás dela, Dona Lorena procupou-se.

- O que foi que aconteceu?

- O Tom e o Rica acharam um esqueleto enterrado perto do lago- disse  Nico. 

- Ai, meu São José!- gritou Dona Lorena.

Todo mundo, então, saiu correndo para o lago.

Lá, encontraram Tom e Rica tranquilos.

- Que história é essa de esqueleto? - perguntou seu Lucas,que chegou na frente.

- Não é nada demais, papai-respondeu Tom. Parece ser o esqueleto de uma paca.

Seu Chico foi olhar e confirmou que era mesmo.

- Às vezes, uma paca velha morre dentro da toca e fica ali mesmo,enterrada.

- Mas que história é essa de ficarem cavando por aí? perguntou Seu Lucas , meio zangado.

- A gente estava procurando um tesouro- disse Nico, sempre rápido nas respostas.

- Mas quem lhes deu a idéia de que havia um tesouro aqui?

Aí, Rica não teve jeito senão mostrar o desenho. 

- Onde acharam isso? perguntou Seu Lucas.

- No barracão- respondeu Rica.

-Deixa eu ver- disse Seu Chico.

Lucas passou-lhe o papel. Quando o viu, Seu Chico começou a rir.

- Mas isso não é nenhum mapa de tesouro. É a planta da rede de água que instalaram aqui uns 10 anos atrás. Foi feita pelo meu antigo patrão. Esses riscos mostravam o lugar por onde deveriam passar os canos.

- Mas, e esse X em cima da palavra caixa da bomba? perguntou Rica.

- Não é um X. É que antigamente, a água que a gente usava era puxada da lagoa. Por isso, havia uma bomba de pressão aqui, nesta caixa de tijolos. Quando foi instalada a rede da rua, pela Prefeitura, não se usaria  mais a bomba. Esse risco queria dizer que não haveria mais necessidade da dela.

De volta para a casa grande, Tom e Rica eram os mais constrangidos com aquela mancada. Afinal, foram eles que apareceram com a história do tesouro perdido.

Chamaram  Nico e Val e os quatro fizeram um trato: ninguém contaria aquela história na escola. Senão o pessoal passaria um mês inteiro zombando deles. Trato feito, trato cumprido.


quinta-feira, 7 de novembro de 2024

O MISTÉRIO DO BONECO QUE SAIU CORRENDO





Quando chegaram na escola naquela quarta-feira, Tom, Rica, Valentina e Nico estranharam a movimentação em frente da cantina. Os alunos se juntavam ali, curiosos. Nico saiu correndo e logo voltou com notícias:

- A Dona Ambrosina teve alguma coisa ruim de novo e está sendo atendida pela irmã Sofia na cantina.

Dona Ambrosina era uma das faxineiras da escola, uma das mais antigas. Quinze dias antes, ela também se sentiu mal, a pressão subiu e precisou ter uma assistência rápida. Não foi coisa muito séria pois, após tomar um copo de água com açúcar, dado pela irmã Sofia, ela se acalmou.

Val foi na cantina ver melhor a situação e voltou, tranquilizando os irmãos;

- Ela já está bem. Precisou só de um copo de água com açúcar.

- Tomando tanta água com açucar, ela vai acabar ficando diuretica- disse Nico.

- Não é diuretica- corrigiu Val.É diabetica,pessoa que tem muito açucar no sangue.

Mas o que teria assustado D.Ambrosina agora? Da outra vez, ela disse que tinha visto um rato gigante na lata de lixo da cantina. Depois, o professor Olavo, de Ciências, explicou que, na verdade, ela tinha visto um saruê, uma espécie de gambá, que parece mesmo um rato, mas é muito maior.

" O saruê-explicou o professor- tem aparecido nas cidades porque estão acabando com as matas, onde eles vivem. Então, procuram comida nas latas de lixo das casas".

O professor disse que eles geralmente aparecem em casas que ficam perto de terrenos baldios, onde fazem suas tocas, de preferência debaixo das raízes das árvores ou arbustos.Explicou que, apesar da aparência feia, os saruês não atacam ninguém e são protegidos , como animais silvestres, pelas autoridades do Meio Ambiente.

E o que será que assustou D.Ambrosina agora?- perguntaram-se os irmãos. Valentina aproximou-se de um grupo de três colegas de sua classe e perguntou. E voltou meio espantada:

- Dona Ambrosina  disse que viu o boneco do Pinóquio sair correndo da sala de artes.

- Bom, se na primeira vez seu susto teve uma explicação, agora parece coisa de gente maluca-comentou Tom.

- Isso está mais me parecendo um mistério para ser resovido. Vamos falar com Dona Ambrosina", disse Rica, já sentindo a coceira detetivesca..

Entraram na cantina e dirigiram-se à mesa onde a faxineira conversava, mais calma, com a irmã Sofia. Ela gostava muito dos irmãos. Dizia que eles eram bonzinhos, educados, sempre a tratavam bem. 

- A senhora podia contar para a gente o que exatament aconteceu? perguntou Rica.

- Já repeti essa história umas cinco vezes aqui para a irmã. Assim que cheguei, cedinho, fui fazer a arrumação na sala de artes, que amanhece sempre toda bagunçada. Quando entrei e me aproximei do palco do teatrinho de fantoches, o boneco do Pinóquio passou correndo por mim.

Nico já ia abrindo um sorriso mas Val, que estava do lado  dele,imediatamente, deu-lhe um beliscão, que o conteve .Rica perguntou:

- E ele saiu de onde?

- Saiu daquela bacia de plástico, onde ficam todos os bonecos.

- Não estaria algum dos alunos, escondido,  puxando o boneco pelos fios, só para assustar a senhora?

- Não. Eu sempre sou a primeira pessoa a abrir a sala de artes e nenhum aluno tem as chaves. E esses bonecos não têm barbantes proque não são marionetes, são fantoches . Nos fantoches, é  preciso enfiar a mão dentro deles para movimentar as cabeças e os braços.

- E a senhora pode dizer em que direção o Pinóquio correu?

- Fiquei muito assustada, não vi direito Só sei dizer que ele saiu da sala e foi para o quintal.

- Obrigado, Dona Ambrosina, disse Rica, e saiu rápido em direção à sala de artes. Os irmãos, mais as três colegas da Val, atrás dele ( " hoje a brincadeira de siga o chefe tem mais gente",pensou Nico).

Na sala de artes, Rica fez o que ele sempre chamava de pesquisazinha. Olhou em todos os lados, principalmente atrás do palco do teatrinho de fantoches e na bacia onde eles eram guardados. Dirigiu-se, depois,  às colegas da Val:

- Vocês sabem se alguém estava preparando alguma apresentação com os fantoches?

- É uma turma da sala B2- disse uma delas. Eles vão fazer um teatrinho no Dia das Crianças.

Rica saiu da sala de artes ( a turma atrás) à procura de  alguém da sala B2. 

 - Olha ali a Elininha! - apontou uma das amigas da Val. Ela é do grupo que está preparando o teatrinho.

Rica perguntou para Elininha quando o grupo tinha feito o último ensaio. Ela respondeu que tinha sido no dia anterior.

- E onde vocês colocaram os bonecos?

- Dentro da bacia de plástico, como sempre.

- E quem está ensaiando o papel do Pinóquio?

-É o Miguel Só Come. 

O Miguel tinha essa apelido porque vivia comendo alguma coisa. Uma hora era uma coxinha; outra hora, um pedaço de bolo, outra hora, pastel e assim por diante. O engraçado é que ele não era gordo.

Procuraram o Miguel Só Come e o encontraram saindo da cantina, comendo um sanduíche de queijo. 

- Miguel-perguntou Rica-você tem certeza que, depois do ensaio de ontem, colocou o boneco do Pinóquio dentro da bacia de plástico?

- Claro.A gente não pode levar as coisas da sala de artes para casa.

- Obrigado-disse Rica e fez a famosa cara de detetive inteligente: " Caso quase resolvido", resmungou.

 - Tenho só mais uma pesquisazinha pra fazer- disse aos demais. E saiu em direção ao muro que separava o quintal da escola do terreno baldio ao lado.E foram atrás dele não só os três irmãos e as três colegas da Val, mas também a Elininha e o Miguel Só Come.

Rica aproximou-se do muro, andou para um lado, para outro. Depois, foi em direção à árvore que ficava no meio do muro, entre os dois terrenos. Aí, voltou com um largo sorriso.

- Caso resolvido!

Todo mundo esperou que ele desse as explicações . Mas Rica não o fez. 

- Alguém vai chamar a Dona Ambrosina e  a irmã Sofia para virem aqui ouvir o que vou dizer.

Nico saiu correndo e logo voltou, acompanhado não só da  freira e  da faxineira, mas, também, de mais uns 10 alunos que o viram sair da cantina.

Reunida a pequena multidão em frente da árvore, Rica disse:

- O boneco está aqui.

Foi para o espaço entre a árvore e o muro, agachou-se e levantou com o PInóquio na mão!

Ouviu-se um grito " ooohhh"!  e todo mundo aplaudiu. Menos Dona Ambrosina, que deu dois passos para trás, com os olhos arregalados.

-Afastem isso de mim! É uma cosia enfeitiçada. Eu sei disso  porque vi este boneco correndo sozinho ( " será que vai ser preciso lhe dar mais água com açucar? ", pensou Nico. Se for,aí ela vai ficar diurética de uma vez").

Rica, com voz calma, se adiantou.

- Não tem nada enfeitiçado, Dona Ambrosina, acalme-se.

E deu a explicação.

- A senhora lembra dos esclarecimentos  que o professor Olavo deu sobre o saruê, que a senhora pensou que era um rato gigante? Pois bem: foi ele, vestido com corpo do fantoche, que a senhora viu..

- Isso é um absurdo! reagiu Dona Ambrosina. Só falta me dizer agora que o bicho fez isso só para me assustar de novo.

- Nada disso- rspondeu Rica. Descobri o que realmente aconteceu quando soube que era o Miguel Só Come quem ensaiava com o Pinóquio. Como todo mundo sabe, o Miguel vive comendo e suas mãos sempre estão cheirando a gordura, açucar, fritura, essas coisas. O cheiro delas ficou impregnado dentro do boneco. O saruê, procurando comida, o sentiu-, entrou na sala pelo vitrô e acbou indo fuçar dentro do Pinóquio, pensando que ali tinha comida.

- Então, quando eu entrei ele se assustou comigo?

- Pois é. E ele estava com a metade do corpo enfiada dentro do boneco. Não deu para sair a tempo e ele saiu correndo com o Pinóquio preso nele. A cabeça do fantoche funcionou como se fosse uma máscara. Se a senhora não tivesse ficado tão assustada, notaria que o Pinóquion correndo tinha quatro patas e  um rabo coprido. E o bicho só conseguiu se soltar quando chegou na entrada de sua toca. E foi ali que achei que poderia estar o boneco . E estava.

Mais aplausos para o Rica e desta vez a platéia era maior.

-Graças a Deus, meu filho, tudo ficou esclarecido-disse Dona Ambrosina. Ninguém estava acreditando na minha história e achando que eu estou maluca. Para falar a verdade, até eu  mesmo já estava começando a achar.

Resolvido o caso, os Lorenos voltaram para casa. Naquele dia nem teve aula por causa daquela confusão toda. E a fama deles, que já estava boa desde a história do teatro atrapalhado, ficou melhor  ainda com a solução do mistério do boneco que saiu correndo.


terça-feira, 5 de novembro de 2024

UM TEATRO ATRAPALHADO




 


Quem chegou com a novidade em casa foi a Val. Ela comunicou a Tom, Rica e Nico que a escola ia promover um festival de teatro. Os alunos poderiam formar grupos e organizar uma apresentação de até 15 minutos de duração. A melhor ganharia um belo troféu e os membros dos grupos levariam prêmios.

- Vamos formar um grupo- disse Val.

- Legal. Vamos fazer uma peça de teatro contando um misterioso roubo de banco - entusiasmou-se  Rica, sempre um grande admirador de histórias de detetives.

- Não vai ser possível- explicou Val. O tema de cada história será sorteado entre os grupos. A gente não pode escolher a história.

- E quando é que a gente vai saber qual será a nossa história ? perguntou Rica.

- Quando inscrevermos nosso  grupo no festival- informou Val. Agora temos de escolher qual será o nome dele.

- Os cérebros de minhoca- disse Nico.

- Isso é sério - bronqueou a irmã- que conhecia muito bem as zombarias do Nico.

Tom, que por ser o mais velho, sempre procurava ser o mais sensato, sugeriu que o grupo tivesse o nome de um ator de teatro.

- Isso vai ser muito comum- aparteou Rica.

- E meio bobo- completou Nico.

- Vocês lembram quando a gente vai na missa com a mamãe, como o padre José recebe a gente? lembrou Val. Ele diz: chegaram os Lorenos. Que tal batizarmos o grupo de Os Lorenos?

A sugestão foi aprovada na hora.

No outro dia, quando Val foi inscrever o grupo, recebeu a história que havia sido sorteada para eles encenarem. Chamava-se " O rei e o servo".Em casa, ela contou como era.

O rei e a rainha de um reino distante estavam jantando no castelo. Então, chegou a hora de servir a  sopa. Um servo foi chamado para servir. Quando estava servindo , o rei deu um grito. Tinha caído uma gota de sopa na sua capa. " Prendam este homem, levem para a prisão e lhe dêem 20 chicotadas'!  bradou.O servo, ao ouvir isso, jogou o resto da concha de sopa no rei. Ele ficou mais furioso ainda: " Aumentem para 50 chicotadas e o deixem uma semana no calabouço".

O chefe da guardas já ia conduzindo o servo para o castigo, quando a rainha disse: " Tragam esse homem de volta". E perguntou ao servo: " Por que jogou o resto da sopa no rei, deixando você mais encrencado ainda?". O servo respondeu: " Porque na primeira vez, sua majestade cometeu uma injustiça, mandando me chicotear só por causa de uma gotinha. Quando  as pessoas do reino soubessem disso, iam dizer que nosso rei é um monarca  injusto. Amo meu rei e não quero que falem mal dele. Por isso,  joguei a concha de sopa,para que as pessoas dessem razão ao soberano, Afinal, meu castigo seria merecido".

Quando o servo falou isso, todos ficaram emocionados com aquela  demonstração de amor de um súdito por seu rei. Este, então, disse: " Está perdoado. E será promovido a chefe dos servos da corte".

- Eu ainda preferia uma história de roubo de banco- resmungou Rica.

- Mas já disse que a gente não pode escolher, reclamou Val.

Enão começaram os preparativos para a montagem da peça. "Vamos começar já , pois o festival será daqui a uma semana", alertou Val.

Os preparativos começaram meio complicados porque Nico insistia em interpretar o rei.

- Você é muito novo e o rei tem de ser velho- explicou Val. Por isso, será o Tom.

- Mas ele é magricela e o rei tem de ser gordo- protestou Nico.

- A gente coloca um travesseiro na barriga dele- disse Val.

- Vai ser um rei pançudo de canelas finas- continuou Nico.

- Não faz mal- completou Val. Mas você terá um papel importante: vai ser o servo.

Nico ficou satisfeito com a escolha. O chefe dos guardas seria Rica e a rainha, é claro, seria a Val.

A segunda etapa da preparação foi pedir para a mãe fazer as fantasias, mas isso não seria problema: ela sempre fazia as roupas dos teatrinhos que eles apresentavam em casa, para as visitas ou em dias de festas. O dificil, mesmo, foi a mãe concordar com o nome do grupo. 

-Lorenos? Quem foi que teve essa idéia idiota? - perguntou.

- Foi o padre José- respondeu , rápido, Nico.

- Não foi bem assim- disse Val. A senhora não acha que é legal, diferente?

- Por que não põem o nome de seu pai?

- Os Lucas? Aí é que seria meio bobo. Além do mais, papai vai ficar todo orgulhoso por sua causa.

Dona Lorena concordu. Ela nunca resistia aos argumentos da Val.


Chegou, então, o grande dia. O festival de teatro seria realizado no salão de festas da escola, pois ali havia um palco com cortina e tudo.

A platéia estava cheia.Ali estavam alunos, pais, mães, professores. Nas cadeiras da frente, instalou-se a comissão julgadora, formada pelo professor Nelsinho, de Artes; a professora Núbia, de Português e o padre José.

Quatro grupos iam disputar: o grupo Estrelas, que apresentaria a história " Os três porquinhos"; o Grupo Fadinha, com a peça " O menino maluquinho"; a equipe Os Globais, com " A história de uma abelha" e os Lorenos, com " O rei e o servo". A apresentação seria em ordem alfabética e, por isso, os Lorenos seriam os últimos a subir no palco.

Então, chegou a vez deles e eles entraram em cena.

A rainha Val gritou " tragam a sopa!" e apareceu o servo Nico, com a tigela com uma concha dentro. Aproximou-se do rei Tom e derramou sopa no prato dele. O rei deu o grito: " Seu desastrado, caiu uma gota em minha capa". Ordenou, então, ao chefe da guarda Rica que prendesse o servo e o levasse para a cadeia, onde levaria 20 chibatadas.  Era o momento do servo derramar a concha toda de sopa na capa do rei. Aí, a coisa desandou.

Não se sabe onde, mas Nico, ao dirigir-se à mesa, tropeçou. Para não cair e poder se apoiar na mesa, largou a concha, que quicou na mesa e derramou toda a sopa na rainha Val. Ela tomou um susto e recuou. A cadeira adernou e Val, com medo de cair, agarrou-se no braço do rei Tom. Os dois acabaram caindo juntos para trás, com cadeiras e tudo.

Os jurados, que estavam na frente, bem perto do palco, se levantaram, com medo de serem molhados de sopa, que na verdade, não era sopa, era uma água tingida de amarelo.Todo mundo na plateia caiu na gargalhada com a confusão.

Enquanto o servo Nico estava meio paralisado, sem saber o que fazer, o chefe da guarda Rica correu para socorrer a rainha. Ainda caída, Val olhou para Tom e sussurrou: " Não vamos parar. Vamos continuar a peça". Tom levantou-se e ordenou ao guarda que levasse o servo para levar 20 chibatadas. 

Nessa hora, as risadas pararam e todo mundo se ligou na peça. A platéia parecia não acreditar que eles contonuariam a apresentação,apesar do incidente. 

A rainha, então, ordenou ao guarda que  trouxesse o servo à presença do rei. Perguntou por que ele tinha feito aquilo, o servo  falou de seu amor pelo rei, o rei o perdoou e etc e tal. A peça terminou, a patéia aplaudiu, com a mesma intensidade como tinha aplaudido as apresentações dos outros grupos ( o que, para Val, já era um lucro). A  cortina foi fechada.

Os jurados, então, foram para uma salinha do lado, onde funcionava a cozinha do salão de festas, para tomarem suas decisões. Val,Rica, Nico e Tom, assim como os integrantes dos outros grupos, foram para a plateia.Lorena e Lucas receberam os filhos com um ar de consolação.

- Eu acho que a gente vai ficar em quinto lugar- disse Nico.

- Como assim, se só tem quatro grupos?- perguntou Rica.

- Pela lambança que fizemos, acho que não vamos ficar nem no último.

Então, abrem-se as cortinas e surge no palco a comissão julgadora.

- Já temos os resultados- disse o padre José, que era o presidente da comissão. Mas, antes de anunciá-los, informo que criamos um prêmio, chamado Mérito Especial. E o vencedor deste prêmio é...o grupo Lorenos!

Fez-se alguns segundos de silêncio e depois soaram muitos aplausos e até alguns assobios.  O padre José continuou:

- Mas não pensem vocês que é um prêmio de consolação. Eles realmente mereceram. Demonstraram ter espírito de verdadeiros  artistas. O espetáculo deve continuar. Eles levaram a encenação até o fim e transmitiram  a  mensagem da peça, que é de amor e justiça. E ainda por cima, fizeram a gente dar boas gargalhadas.

Mais aplausos e mais alguns assobios. Os Lorenos foram chamados ao palco, onde Valentina, como diretora do grupo, recebeu troféu de mérito. Dona Lorena e Seu Lucas, na platéia, não conseguiam esconder o orgulho de seus filhos.

Depois, foram anunciados os demais vencedores e o primeiro lugar foi para Os Globais, com  " A história de uma abelha". Mas todo mundo concordou, mesmo, que o  momento mais emocionante da premiação  foi o dos Lorenos.

Mais tade, quando voltavam para casa, felizes, Val disse:

- No fim, o grande herói, mesmo, foi o Nico, com aquele tropeção.

- E olhem que eu era apenas o servo- disse Nico. Se eu fosse o rei, como queria desde o começo, era capaz de a gente ficar em primeiro lugar.

E todos gargalharam.


segunda-feira, 4 de novembro de 2024

QUEM PÔS MOLHO DE TOMATE NA CABEÇA DO BEBÊ?






Naquela manhã, como sempre, D.Lorena estava toda atarefada na cozinha, preparando o almoço. Quando os quatro filhos maiores chegassem da escola, viriam, para variar, bem famintos.

Então, oubiu um barulho que conhecia bem: o bebê,Antonio, de um mês , tinha acordado. Largou tudo e foi correndo para o quarto de casal, onde o berço do Antonio ficava. Rápida e prática como sempre, pegou o bebê, aconchegou -o contra o peito com a mão direita e, com a esquerda, pesquisou se ele estava mohado de xixi.

Quando voltou a olhar para o bebê, tomou um susto. Na orelha direita dele e em parte da cabeça, havia uma mancha vermelha. Na hora, achou que fosse sangue e passou a mão nela, em busca de alguma ferida. Estava tremendo. Mas não sentiu, nem  viu, nenhum machucado. Achou também aquele sangue meio estranho e , quando o examinou melhor, mais calma, viu que era molho de tomate.

Depois que o susto passou e veio o alívio, veio também a dúvida: como aquele molho tinha indo parar na cabeça do bebê?

Surgiu, então, um suspeito: Martim. E foi rapidamente para a sala, onde o filho de quatro anos brincava com um joguinho de montar. 

E por que Martim era o suspeito? Primeiro porque ele era o único dos filhos que estava em casa. Os gêmeos, Victor e Vicente, estavam na creche, os outros, na escola. E Martim não tinha um passado muito bom quando se tratava dos irmãozinhos menores.

Quando os gêmeos eram bebês ( agora estavam com dois  anos ), de vez em quando ia no berço e dava uns petelecos nas cabeças deles  

A médica de D.Lorena havia explicado que isso era normal. Até o nascimento dos gêmeos, Martim era o mais novo dos irmãos, o caçulinha querido. Quando vieram os novos bebês, chamando a atenção de todo mundo, ele começou a ficar com ciúmes e tentava agredir os irmãozinhos.

Ela aconselhou D. Lorena e o pai Lucas a darem mais atenção para o Martim, sempre fazê-lo participar das coisas dos gêmeos, como, por exemplo, ajudar a lhes dar banhos. " Ele vai se sentir também responsável pelos irmãozinhos e não vai se sentir abandonado", explicou a médica.

O conselho deu certo e Martim parou com os petelecos. Mas, e se agora ele estiver tendo uma recaída com o novo bebê?

Mas, ao ver Martim brincando na sala, com seus cubinhos de madeira, tranquilo, D. Lorena não teve coragem de perguntar para ele sobre o molho de tomate. E se ele fosse inocente? Poderia ficar magoado com suas perguntas. Não era ela quem sempre dizia para os filhos para nunca acusarem ninguém sem provas?

E  Martim podia ser inocente, mesmo. Durante toda a manhã, ele não  entrou na cozinha. E só na cozinha ele poderia pegar o molho de tomate. Além disso, enquanto ela preparava a macarronada, a bisnaga com o molho sempre esteve perto dela, sob suas vistas, em cima da pia. Ela veria Martim pegá-lo, se ele entrasse para fazer isso.

Sim. Martim era inocente e ponto final. O importante é que a mancha vermelha na cabeça do pequeno Antonio não era de sangue.

Perto do meio dia, chegam as crianças. Val, como sempre, foi direto para a cozinha, ver o que a mãe tinha feito para o almoço. Depois de ter explicado que era macarrão ao molho de tomate, D.Lorena  contou a história do molho na cabeça do bebê.

-  Já sei, foi o Martim.Disse Val imediatamente.

- De jeito nenhum. Tenho certeza- disse. E já pesquisei direitinho.

Depois de ter entrado no quarto e visto o bebê, que estava dormindo novamente, Val foi até a sala, onde estavam Tom, Ric e Nic e contou o que a mãe lhe havia narrado.

-Oba! Mais um mistério para a gente resolver! - gritou Nic, que se lembrou logo da história do violino desaparecido.

- Isso é muito é estranho mesmo- disse Rica, já fazendo cara de detetive inteligente. E agora ele fazia isso segurando o queixo com a mão direita.

- Vamos na cozinha. Tenho umas perguntinhas para fazer para mamãe.

E todos os três o seguiram até a cozinha. Rica fez a primeira pergunta:

- Mãe, a senhora não saiu da cozinha em nenhum momento?

- Não. Só saí quando fui ao quarto depois que o bebê chorou.

- E qual mesmo era o prato que a senhora estava fazendo?

- Macarrão com molho de tomate.

- Isso explica- interrompeu Tom- a presença do molho de tomate.

- Puxa! Que conclusão inteligente! - disse Nic, que não perdia uma oportunidade de zombar  do irmão mais velho.

Rica dirigiu-se rápido para o quarto da mãe. Os outros três atrás. Aproximou-se do berço, olhou-o atentamente e voltou para a cozinha. Os outros três seguiram-no.

- Mãe, a senhora trocou a roupa do berço?

- Não, não foi preciso. Estava tudo limpinho, não havia nem xixi.

Rica colocou a mão no queixo e fez cara de detetive inteligente.

- Agora está ficando tudo claro- disse. Mãe, a senhora estava usando essa mesma roupa o tempo todo?

- Não. Eu estava com aquela jaqueta de brim. Como ela ficou suja com o molho da cabeça do bebê, eu a tirei. Está na área de serviço, em cima da máquina de lavar.

Rica saiu rápido em direção à área de serviço e os três atrás. Lá, pegou a jaqueta da mãe, examinou, estalou o dedo e disse:

- Caso resolvido!

E voltou para a cozinha, com os três nos seus calcanhares. 

- Isso esta parecendo aquela brincadeira de siga o chefe, disse Nico.

Na cozinha, Rica dirigiu-se à mãe:

- Foi a senhora a responsável pelo molho de macarrão na cabeça do bebê.

- Como você diz isso? reagiu D.Lorena, indignada. Jamais eu faria uma coisa dessas com meu querido bebezinho.

- Calma, mãe-  falou Rica. Eu explico como cheguei a essa conclusão.Quando examinei o berço e vi que ele estava limpinho e a senhora disse que não trocou nada, não foi dificil concluir que a cabeça do bebê não estava suja de molho quando a senhora o pegou.Senão, com os movimentos dele, sujaria, também, o lençol ou o travesseiro.

- Você pode ter razão. Como eu estava nevosa, achando que a mancha era de sangue, nem prestei atenção nisso.

 - O que estava suja era sua jaqueta- continuou Rica. Foi ela que sujou o bebê e não o bebê que sujou ela.

- Mas como a jaqueta sujou?-perguntou a mãe.

- . Na hora que o bebê chorou, a senhora estava com a bisnaga na mão, colocou-a rapidament sobre a pia e , neste movimento, deve ter dado um aperto nela e um pingo grosso pulou para a jaqueta. 

- Isso acontece mesmo- interrompeu Nico. Lembra aquela vez no Mac Donald`s, quando a Val bateu a bisnaga de mostarda na mesa e voou um pingo no olho do papa .Ele ficou desesperado procurando um guardanapo pra limpar, dizendo que estava ardendo? Foi bem engraçado.

Nesta hora, Martim, que nem de longe sabia o que estava acontecendo,, entrou na cozinha. Lorena pegou- o no colo e começou a abraçá-lo e dar-lhe beijos.

- Meu queridinho, anjinho da mamãe. Você não quer um pedaço de bolo de chocolate?

Martim não entendeu nada. A mãe lhe oferecendo bolo antes do almoço?  Mas aceitou. Afinal, ele era pequeno mas não era bobo. 


sexta-feira, 1 de novembro de 2024

O VIOLINO DESAPARECIDO





Sábado, quando Tom e Rica chegaram em casa, apos passarem a sexta-feira na casa da vovó, foram recebidos já no portão por Val.

- Preciso falar com vocês!

Quando a irmã fazia isso, é porque o assunto era sério. E não devia ser falado na frente da mãe.

E, como sempre acontecia quando isso ocorria, eles foram para o quarto da Val.

- O meu violino sumiu- disse ela.

A coisa é séria mesmo, pensou Tom, de 12 anos, o mais velho dos irmãos.E olhou para Rica, o de oito anos, terceiro da lista, Val era a segunda, com 10 anos.

Val havia ganho o violino do pai, dois anos atrás. E frequentava uma escola de música. O pai sempre dizia para ela tomar muito cuidado com o instrumento. Se ele soubesse que tinha desaparecido, ia ficar muito bravo.

- Mas como isso aconteceu, se você sempre deixa ele trancado na gaveta  de baixo de seu armário? perguntou Tom.

- É isso que não entendo. Só eu e a mamãe temos as chaves.

Ela tinha decidido manter o violino trancado na gaveta por causa do Nico, de seis anos,  o quarto da lista. Ele vivia querendo tocar no violino com os dedos, como se toca violão. Val cansava de explicar que violino se toca com o arco, uma espécie de vareta com fios de nylon ( ela odiava que se chamasse o arco de vareta). "Tocar  com os dedo quebra as cordas". Mas Nico não acreditava. Então, o jeito era manter o instrumento trancado na gaveta.

- O Nico não pode ter pegado o violino, pois a chave da gaveta está sempre comigo- expicou Val.

-  Ele pode ter pegado suas chaves quando você não viu- disse Tom.

Rica, que tinha a mania de ler histórias de detetives e vivia vendo séries de mistério na TV, afirmou:

- Isso é um mistério que a gente tem de resolver.Vamos organizar nossas idéias. Primeiro, vamos ver quem são os principais suspeitos. Quando foi que você pegou o violino pela última vez?

- Hoje cedinho, depois coloquei de volta na gaveta. E quando fui pegá-lo na hora do almoço, não estava mais.

- Então, eu e o Tom não somos suspeitos, pois quando o violino sumiu a gente ainda estava na casa da vovó.Pode ter sido o Nico, em alguma hora que você saiu. Você saiu?

- Eu saí para comprar pão.

- Então, nessa hora o Nico entrou no seu quarto, pegou a chave que você, que às vezes é cabeça de vento,  deve ter esquecido em cima da mesinha, abriu a gaveta e pegou o violino. Depois, se distraiu com ele e quando você voltou da padaria, não teve tempo de colocar de novo na gaveta e deve ter escondido em outro lugar . Vai esperá-la sair de novo para recolocá-lo na gaveta, sem você ver.

Dando essa explicação, Rica fazia aquela cara de inteligente que os detetives fazem na TV.

- Então vou lá obrigar aquele danado a me devolver o violino! disse Val, irritada.

- Cama aí- interrompeu Tom, sempre mais sensato. A mamãe vive falando pra a gente nunca acusar uma pessoa sem provas.

- Então como vou saber se foi o Nico  ou não?

- Tive uma idéia- disse Rica. O Nico está lá na sala. Val, você pega o celular da mãe e entra na sala fingindo que está falando com uma amiga do conservatório. Diz que a professora ensinou um jeito de tocar violino como se fosse um violão,  sem quebrar as cordas.

Val atendeu a orientação. Assim que terminou o falso telefonema, Nico, que estava ouvindo, foi direto até ela.

- Isso é verdade?. Então agora me ensina a tocar o violino com os dedos.

- Pega lá, então, na gaveta do meu quarto.

Nico saiu correndo até o quarto de Valentina e voltou choramingando.

- Sua chata! O violino não tá lá.

Então, eles tiveram certeza de que não tinha sido o Nico quem pegou o instrumento. Senão ele não ia correndo buscá-lo na gaveta.

- E agora- perguntou Val meio desolada. Se não foram vocês dois, e não foi o Nico, quem foi?

- Sobram a mamãe  e o papai- disse Tom.

- Você está maluco. Porque eles pegariam o violino sem falar comigo? - afirmou Val.

- A mamãe podia estar querendo fazer uma limpeza na gaveta, tirou o violino e depois esqueceu de por de volta , disse Tom.Vamos perguntar a ela.

- Mas ela falaria comigo. Além disso, sempre diz que as limpezas no meu quarto quem tem de fazer sou eu.

- E não vamos perguntar nada para ela, alertou Tom. Se não foi ela, também vai ficar brava, vai falar com o papai e a Val vai ficar mais encrencada ainda.

Então, Rica, fazendo de novo  cara de detetive inteligente,  apresentou outro truque para descobrir se a mãe tinha ou não desaparecido com o violino.

- Ela está na cozinha. Vai lá e diz que vai fazer uma limpeza no seu  armário. Vamos ver como ela reage. 

Val, de novo obediente, foi. Voltou, dizendo que a mãe não só concordou com a limpeza, , como mandou que ela pegasse um pano limpo na área de serviço.

-Então, ela não mexeu na gaveta- concluiu Rica É inocente.

- Bem- disse Tom. A gente não deve dizer para ela que o violino sumiu. Vai contar para o papai, pois eles vivem contando as coisas um para o outro.E o papai não vai gostar nada dessa hisória.Vocês sabem como ele vive dizendo para a gente ter cuidado com as nossas coisas.

Rica fez de novo aquela cara detetivesca e falou:

- Vou fazer umas averiguações por aí e, na hora do jantar, quando todo mundo estiver na mesa, vou resolver o caso.Até lá, não vou adiantar nada para vocês. Confiam em mim?

Val e Tom disseram que sim.

À noite, na hora do jantar, todo mundo na mesa, Rica falou, de repente.

- Pai, mãe: o violino da Val sumiu!

Val e Tom quase cairam das cadeiras. Não era para acontecer aquilo. Agora, o pai ia fazer aquele sermão, pensaram os dois.

A mãe, que estava dando papinha para Vicente, um dos gêmeos ( outro, Victor, estava dormindo), arregalou os olhos.

 - Como assim o violino sumiu? perguntou e quase colocou a colher de papinha no nariz do  Vicente, ao invés de na boca. O pai fez uma cara estranha.

Rica manteve a calma.

- Sumiu. Nós já eliminamnos os suspeitos. Não fui eu nem o Tom, nem Nico e nem a mamãe. Os gêmeos  e o Martim, também não, pois são muito pequenos e não estão interessados em violinos, só naqueles chocalhos grudentos e aquele bumbo barulhento que ganharam no Natal. 

- E quem foi então? perguntou a mãe.

- Foi o papai.

Foi a vez do pai arregalar os olhos.

- Eeeeeuuu?! E por que você acha isso?

- Porque você foi o único suspeito que sobrou.

O pai abriu, então, um sorriso estranho e perguntou:

- E quais são as provas contra mim ?

- Tenho só uma, mas é suficiente-disse Rica. Eu estava pesquisando por aí e olhei na mesa do seu escritório. Sabe o que achei ? Isso aqui.

E mostrou para o pai uma coisa parecendo uma linha, ou fio, branca.

- E o que é isso? perguntou o pai.

- É um pedacinho daquele barbante da vareta do violino.

- Não é barbante, é nylon. E não é vareta, é arco-  interrompeu Val, sempre zangada com aquela mania de falarem errado os  nomes das coisas de seu violino.

- Pois bem-continuou Rica.É uma prova de que o senhor andou mexendo no violino.

O pai olhou para todos, para a mãe, abriu um sorriso meio sem graça e disse:

- Você tem razão. Confesso. Fui eu mesmo. Um colega meu de serviço disse que queria comprar um violino para a filha dele. Mas não sabia que tipo de violino comprar. Aí eu resolvi levar o da Val para ele ver e ter uma idéia. Hoje, fui pedir o violino para a Val, mas ela não estava, tinha ido na padaria. Vi que ela tinha esquecido a chave da gaveta em cima da mesinha .Peguei o violino, mas ele escapou de minha mão e caiu. E arranhou um lado.

- Ja entendi, já entendi-- interrompeu Tom. O senhor, que vive dizendo para a Val ter cuidado com o instrumento, como ia se explicar agora, né?

- Pois é. Então, eu fui na oficina de sapato, no centrinho, para ver o que meu amigo sapateiro Haroldo podia fazer para tirar o arranhão.Ele fez o  serviço rápido: lixou o arranhão e passou de novo um verniz. Como o verniz seca na hora, voltei logo para casa.  .

- Aí o senhor foi colocar o violino na gaveta da Val, antes dela notar pela falta dele. Mas não deu tempo- disse Rica]

- Ela tinha chegado antes de mim da padaria e estava no quarto dela.Então, deixei o violino  no guarda-roupas do meu quarto e estava esperando uma hora de entrar no quarto da Val sem ela ver. Punha o violino de volta na gaveta e ela nunca ia saber o que tinha acontecido.

- Mas nós atrapalhamos tudo porque ficamos a tarde quase toda no quarto, né?- lembrou Val.

Acabou de falar E saiu correndo para o quarto da mamãe e do papai e voltou com o violino, toda felIz. Parecia que tinha recuperado um gatinho perdido.

-E como é que se diz quando a gente faz coisa errada? perguntou a mãe, lançando um olhar bravo para o pai.

- Já sei, já sei. Peço desculpas e isso não vai mais se repetir.

Mais tarde, antes de irem dormir,Tom, Rica e Val se reuniram mais uma vez no quarto dela.

- Parabéns, grande detetive. Mas que idéia foi aquela de ir pesquisar na escrivaninha do papai? perguntou Tom.

- Eu não fiz isso.

- Como assim. E onde foi que você encontrou aquele pedaço de barbante da vareta? 

- Barbante não, nylon! Vareta não, arco! cortou Val. 

- Eu inventei aquela história- disse Rica. O fio que mostrei era um fio de linha dessas que a mãe usa para costurar. E ele , como se sentia culpado, nem se preocupou em pedir o fio para examinar. Já foi confessando.

- E porque você  cismou que o culpado era ele?

-Era o único suspeito, lembram? Mas não digam agora para ele que usei o truque. Daqui a uns dois dias, quando ele estiver menos envergonhado e a mãe não estiver zangada com ele,  a gente fala.

E os três riram.


 


ELES SÃO REAIS

As personagens deste blog foram inspiradas nos netos do autor. Veja, nas imagens quem são eles.