Era época de festas de Natal e na escola o professor de Artes pediu para que os alunos formassem grupos e fizessem objetos de decoração para a data: árvores de Natal, presépios, estrelas de Belém ou outros tipos de enfeites. Depois, podiam levar os objetos para suas casas.
Tom, Val, Rica e Nico resolveram fazer um presépio. Como o presépio que eles planejaram era um pouco grande, o professor orientou que eles fizessem em peças separadas, porque inteiro seria ficar difícil levá-lo para casa.
Assim, no dia de levar para casa, cada um levou uma parte. Rica ficou encarregado de levar o telhado do celeiro; Tom, que era o maior, ia levar o resto do celeiro. Nico ficou responsávl por carregar a manjedoura e a Val levaria as imagens de São José, Nossa Senhora, Menino Jesus e os anjinhos.
Quando estavam perto do portão de casa, ouviu-se um grito:
- Rica, tenho um album novo de figurinhas para lhe mostrar.
Era o Isaías, vizinho dos Lorenos, muito amigo do Rica. Este, que gostava bastante de colecionar figurinhas, principalmente de times de futebol, imediatamente parou. Os outros irmãos entraram em casa.
Dona Lorena pediu que eles deixassem as partes do presépio na sala e fossem lavar as mãos, pois o lanche da tarde estava pronto.
- Onde está o Rica?- perguntou.
- Ele está lá na frente conversando com o Isaías- respondeu Val.
- É bom que ele venha logo, senão o lanche esfria.Eu fiz cachorro quente.
Logo o Rica apareceu, folheando um álbum de figurinhas.
- Ei! Cadê o telhado do presépio? alertou Nico.
- Puxa! Esqueci lá fora! respondeu Rica. E saiu correndo.
Passaram-se alguns minutos e ele não voltava. Dona Lorena pediu para que alguém fosse buscá-lo. Nico,sempre mais esperto e rápido, foi. Encontrou Rica saindo da casa do Isaías e atravessando a rua, com uma cara preocupada.
- O que aconteceu? perguntou Nico.
- O telhado do presépio desapareceu- respondeu Rica. Fui na casa do Isaías, para saber se ele tinha pegado,mas ele disse que não.
Entraram em casa. Rica relatou o caso para Val e Tom.
- Mas como isso foi acontecer?
- Quando o Isaías me chamou e falou do album de figurinhas, eu coloquei o telhado do presépio em cima do muro para poder folheá-lo. Ele disse que eu podia trazer para casa, para olhar com mais calma, depois eu devolvia. Eu fiquei tão distraído folheando que vim logo para casa e nem lembrei de pegar o telhado em cima do muro. Quando voltei, ele não estava mais lá.
- Mas quem ia querer pegar aquilo? Ele só serve em nosso presépio. Além disso, é feito de isopor e alguns pedaços de madeira. Para quê serviria esse material ? perguntou Val.
- E se a gente se espalhasse e saísse pelo bairro procurando? convidou Tom.
- Nada disso- interveio Dona Lorena. Todo mundo vai lanchar e ninguém sai mais de casa hoje. Já está anoitecendo e não é hora de criança estar na rua. Vão procurar amanhã.
- Mas mãe- choramingou Rica- amanhã gente pode não encontrá-lo mais.
- Paciência. Depois vocês fazem outro telhado.
Obedientes, eles não insistiram. Mais tarde, na hora de dormir, no quarto dos meninos, Rica dirigiu-se ao Tom.
- Eu tenho uma idéia de quem pode ter pegado o telhado.
Quando ouviu isso, Nico, que estava lendo uma revistinha, se aproximou. Rica estava cam aquela cara de detetive inteligente que fazia quando decidia resolver um mistério.
- Quem é que vive rodando pelo bairro, sempre pegando tudo que vê pela frente, mesmo coisas que não servem para ninguém?
- A Dona Geru- responderam Tom e Nico quase ao mesmo tempo. Quem não conhecia Dona Geru? Era uma senhora sempre vista puxando um carrinho de compras, desses que têm em supermercados. Dentro dele. muitas tranqueiras.Coisas que ela pegava pelas ruas, nas latas de lixo ou pedia para as pessoas. Podia ser uma vassoura sem cabo, ou um cabo sem vassoura, uma roda de carrinho, rolos de fio ou barbante. Quando ela passava perto de uma obra em construção, pedia alguma coisa para os trabalhadores, perdaços de madeira, tijolos, um pouco de cimento ou de areia.
Mas Dona Geru não era mendiga. Era viúva e morava em uma casa antiga, no fim da rua da Igreja. A casa ficava separada da igreja por dois terrenos baldios,cheios de mato. Por isso, ela era uma pessoa isolada.
Andava vestida de um jeito esquisito, geralmente um roupão com capuz. Como, além disso, morava isolada, as crianças do bairro diziam que ela devia ser uma bruxa.
Rica apresentou um plano para os irmãos: no outro dia, na volta da escola, eles passariam na casa de Dona Geru, para perguntar se ela tinha pegado o telhado do presépio.
- Eu não vou- atalhou logo Nico.E se ela resolver transformar a gente em camundongos?
- Deixa de bobagem- disse Tom. Bruxas não existem. Não precisa ter medo.
Nico se convenceu. Afinal, se havia uma coisa que ele gostava era de uma aventura com os irmãos. No outro dia, na ida para a escola, explicaram o plano para Val, que também topou participár.
Na volta da escola, foram direto para a casa de dona Geru. Como toda casa antiga, ela era grande, com muros altos. Tinha um quintal comprido na frente, coberto de mato. Entre o portão e a casa, passando no meio do mato, havia um caminho calçado de pedra.
- Parece mesmo uma casa de bruxa! murmurou Nico, quando se aproximaram.
Procuraram uma campainha para chamar a moradora, mas não havia. Então, Tom bateu palmas. Esperaram mas ninguém atendeu.
- Acho bom a gente ir embora. Dona Geru não está- disse Val, que parecia um pouco impressionada com a aparência do lugar.
- É melhor a gente entrar e bater na porta- sugeriu Rica.
- E se tiver um cachorro?- alertou Val.
- Se tivesse, ele teria latido quando batemos palmas-tranquilizou Rica.
- E além disso, bruxa não tem cachorro, tem gato- brincou Nico.
Entraram, pois o portão não estava trancado.
Tom bateu na porta da frente, esperaram um pouco, mas também ninguém atendeu.
- Vou bater mais forte- disse Rica. E quando bateu, a porta abriu. Ela não estava trancada.
- Nos livros de história de mistério, as portas das casas velhas sempre abrem sozinhas. Acho melhor a gente ir embora- disse Val, ainda impressionada .
- Bobagem. Se a porta está aberta é sinal de que dona Geru está em casa. Deve estar lá nos fundos e não escutou a gente. Vamos dar a volta.
E como sempre seguiam Rica quando esse falava alguma coisa com ar de inteligente , lá foram eles dar a volta na casa.Havia nos fundos uma área de serviço que, como toda casa antiga, se ligava à cozinha. Tom notou que a porta da cozinha estava aberta.
- Acho que ela está na sala- disse. Entraram devagar na cozinha e foran até a sala. Então, ouviram um grito horrível:
- Ghhgaaaa!
E viram, logo a seguir, uma cena aterrorizante. De costas para a janela da sala, que tinha uma cortina preta, e de frente para eles, dona Geru estava flutuando mais de um metro acima do chão. Balançava os braços e repetia:
- Ghhgaaaa! Ghgaahhhh!
As crianças sairam em disparada. Em poucos segundos passaram pela cozinha, pela área de serviço, pelo lado da casa e chegaram ao portão . Só quando estavam na esquina, pararam, cansados,mal podendo respirar.
- Eu não disse que ela era uma bruxa! Estava voando. Só uma bruxa pode voar daquele jeito- disse Nico.
- E que grito apavorante! falou Val.
Tom estava calado, pensativo. Rica disse, mais calmo:
- Tem alguma coisa estranha ali.
- É claro que tem!- interrompeu Nico. Tem uma bruxa voando e gritando ggghaaaa! È bom a gente ir pra casa antes que ela nos persiga e nos transforme em camundongos.
- Eu acho que a gente deve voltar lá=- disse Rica.
- Não acho isso bom- afirmou Tom, sempre sensato.
- Mas acontece que notei uma coisa que pode explicar aquela cena esquisita.
" Só o Rica, mesmo, para notar alguma coisa no meio de uma cena de terror como aquela", pensou Val.
- Vamos voltar- insistiu Rica
Rica estava com seu ar de detetive inteligente e quando ele ficava assim, os irmãos sempre o seguiam.
Chegaram na casa, desta vez muito mais cautelosos. Rica ia na frente,seguido por Tom. Depois vinha Val, uns três passos atrás e NIco, de olhos arregalados, atrás dela.
Quando entraram na cozinha, Rica pediu que eles ficassem mais para trás, pois seria mais fácil ele se aproximar da porta da sala sem serem notados.Ele chegou perto da porta, olhou para dentro e, de repente, ouviu-se, de novo, o grito horrível:
- Ghhhhaaaaa!!
Tom, Val e Nico sairam em disparada, mas Rica, não. Entrou correndo dentro da sala. Quando estava na área de serviço, Tom gritou:
- O Rica ficou lá dentro. Não podemos deixá-lo.
E voltou. Val e Nico atrás dele. Estavam apavorados, mas não podiam abandonar Rica para trás.
Quuando entraram na sala, viram outra cena apavorante: Dona Geru ainda estava flutuando diante da janela, mas, desta vez, com Rica debaixo dela. Na hora, eles pensaram que Dona Geru tinha agarrado Rica. Partiram para cima dela para salvar o irmão.Então, Rica gritou:
- Parem! Alguém aí, levanta aquela escada do chão.
Foi, então, que eles notaram uma escada grande, dessas de alumínio, caída no chão.
- Rápido. Tragam a escada para perto de mim.
Enquanto falava isso, Rica não saia de perto de Dona Geru. Tom, então,notou que não era Dona Geru que agarrava Rica, mas Rica quem segurava a Dona Geru pelas pernas. Pegou a escada e levou para perto dos dois.
Dona Geru apoiou uma perna nas escada e Rica a soltou.
O caso, então, ficou esclarecido. Dona Geru estava colocando uma cortina nova na sala. Subiu na escada para encaixar umas argolas no varão. Nessa hora, ouviu um ruído na cozinha e se virou para saber o que era. Eram os irmãos. Ao se virar, a escada caiu. Mas ela não : o capuz que sempre usava, ficou enroscado no varão . Ela ficou dependurada. E as crianças pensaram que estava fLutuando.
- O capuz , como é costurado nos ombros do roupão dela, não a estava enforcando. Mas apertava um pouco seu pescoço. Por isso, ela não conseguia falar para pedir ajuda. Sufocada, so podia dar aquele grito feio para chamar a atenção- explicou Rica.
- Ghaaaa! repetiu Nico.
Dada as explicações, levaram dona Geru , que estava ainda meio sem ar, para a cozinha. Ela, depois de tomar um copo de água , ficou mais calma. E agradeceu aos meninos.
- Se não fossem vocês chegarem, não sei o que seria de mim.
Eles notaram que ela era uma senhora simpática, de olhos claros, dentes bonitos. De perto, nem de longe lembrava uma bruxa.
- Mas, afinal, o que vocês vieram fazer em minha casa?- perguntou ela.
Tom respondeu:
- A gente queria saber se foi a senhora quem pegou o telhado do presépio que estava no muro de nossa casa.
- Entendi- disse Dona Geru. Todo mundo no bairro fala sobre minha mania de pegar coisas por aí. Sabem por que faço isso?
Ela explicou: era uma pessoa pobre. Vivia de um dinheiro de uma pequena aposentadoria deixada por seu marido. Então, pegava algumas coisas na rua, que não serviam para os outros, mas podiam servir para ela. Guardava-as em um quartinho dos fundos da casa, para ser usada em caso de necessidade.
- O quartinho, mesmo, foi construído com os tijolos, a areia, o cimento e outros materiais que fui juntando durante anos.
E a informação mais importante, Dona Geru deu a seguir: sim, ela tinha pegado o telhadinho do presépio. Eles podiam levar.
Depois, indo para casa, os Lorenos comemoravam mais um caso resolvido.
- Esse foi, até agora, nosso caso mais importante- disse Nico.
- Por que descobrimos onde estava o telhadinho do presépio?-,perguntou Val.
- Não.Porque descobrimos que Dona Geru não é uma bruxa- respondeu Nico

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