Quando Vale fez a pergunta,
Dona Lorena parou de limpar a mesinha da sala, olhou para ela com um sorriso
maroto e respondeu:
- Só se for aquela calçada
da frente, que toda semana tenho de lavar para tirar o cocô dos cachorros.
- Nada disso- disse Vale. A
sua calçada é até histórica.
- Então me explica isso.
Vale então explicou que
existe na Serra do Mar um monumento histórico chamado Calçada do Lorena. Hoje
está toda estragada, em ruínas, mas 300 anos, atrás era muito importante porque
era por ela que as riquezas de São Paulo iam para o Litoral, para serem embarcadas no porto de Santos. E
também era por ela que as mercadorias que chegavam no porto eram transportadas
para São Paulo.
- Puxa! E como é que você
soube de tudo isso?-perguntou Dona Lorena.
- Foi o professor de
História que contou. No começo , era difícil subir e descer as mercadorias pela Serra do Mar, que é muito
alta. Não havia estradas e as cargas tinham de ser levadas pelos escravos,
negros e índios. Então, fizeram a calçada, toda de pedra. Ela começava na
cidade de São Bernardo e terminava em Cubatão, perto de Santos. E as cargas
passaram a ser transportadas em lombos
de burros.
- Puxa, você aprendeu
direitinho a lição- admirou-se a mãe.
- E sabe por que ela se
chama calçada do Lorena?
- Não.
- Porque o governador que
mandou construí-a chamava-se Lorena.
- Ah! Então era um homem?
Vou brigar com meus pais por terem me dado um nome de homem- brincou Dona
Lorena.
- Lorena era o sobrenome. O
nome dele completo era Bernardo de Lorena.
- Ah! Então, seu Paulo e
dona Leda estão perdoados.
- Pois é. E agora, vou lhe
dar a melhor notícia: a escola vai fazer uma excursão para levar os alunos para
conhecerem as ruínas da estrada.
- E quando será isso?
- Na segunda-feira. A gente
tem de acordar cedinho pois vamos pegar o ônibus na escola.
- Então, precisamos nos
preparar, arrumar roupa, lanche, essas coisas- completou Dona Lorena, sempre
prática.
Na segunda-feira, Vale,
Rica, Tom e Nico foram acordados bem cedo por Dona Lorena. Nico, que não
gostava de acordar cedo, resmungou:
- Quero dormir mais um pouco. Vocês vão na
frente e mais tarde eu vou.
- Muito engraçadinho. Pode
tratar de se levantar.
Quando chegaram na escola,
já estavam lá vários colegas, o professor de História e a professora de
Educação Física. Todos muito animados com a viagem. Só Nico não demonstrava
muita animação e os irmãos sabiam porquê. Ele não gostava de acordar cedo. Todo
dia era a mesma coisa: ficava emburrado e só se animava mesmo depois que
chegava na escola e encontrava os amigos. Mas nesse dia ele estava mais azedo
porque tinha acordado mais cedo do que nos outros dias. “ Quem é que precisa
ver uma calçada velha?”
Durante a viagem, todo mundo
ficava olhando pela janela, vendo a paisagem, fazendo comentários
divertidos. Nico ficou cochilando,
apoiado no ombro da Vale, ao lado de quem havia se sentado.
Uma hora depois, chegaram no
local da excursão. O ônibus saiu da rodovia, entrou em uma estradinha estreita,
com bastante árvores em cada lado. Estava entrando na Serra do Mar. Logo
atravessou uma porteira e parou diante de uma casa antiga.
- Vamos descendo pessoal-
gritou professor de História.
Tudo ali era diferente. Só
se ouvia o canto de pássaros e outros barulhos que costuma se ouvir em
florestas, como um galho caindo, o ruído do vento.
- Primeiro nós vamos entrar
na casa grande, para conhecer o nosso guia. Lá tem um pequeno museu, com coisas
bem interessantes- disse o professor.
Entraram na casa e o museu
era, realmente bem legal. Havia quadros, arreios de animais, roupas, móveis,
objetos de cozinha, armas, ferramentas,tudo do tempo antigo. As crianças,
curiosas, faziam muitas perguntas, que eram respondidas pacientemente pelo
professor e pelo guia.
- Antes da gente ir ver a
calçada de Lorena, o guia vai dar algumas orientações sobre como se comportar
na caminhada- informou o professor.
O guia começou a falar e
Nico começou a cochilar em pé. Em certo momento, aproveitou que o pessoal
estava distraído, prestando atenção na palestra, e resolveu sair dali, sem
ninguém notar.
Atravessou a sala do museu e
foi para a varanda. Então, notou que na varanda havia uma rede. Resolveu sentar
nela e ficar balançando.
Estava naquele vaivém,
quando apareceu um garoto, do mesmo tamanho dele e parecendo ter a mesma idade,
nove anos. Era bem diferente dos demais garotos que Nico conhecia. Era bem queimado
de sol, quase moreno. O que chamava a atenção eram as roupas. Vestia um
camisolão branco, de um tecido grosso, que ia até os joelhos e usava um
bermudão, cujas pernas iam bem abaixo dos joelhos. E estava descalço.
- Você viu o meu cachorro?
Perguntou o garoto, sem nem se apresentar.
Nico respondeu à pergunta
com outra pergunta, como costumava fazer às vezes:
- O que aconteceu com seu
cachorro?
- Ele sumiu. Não encontro em
lugar nenhum e estou preocupado, pois ele nunca faz isso.
E já ia se retirando, quando
Nico o chamou:
- Se quiser, ajudo você a
procurá-lo. Como é que ele se chama?
- Mancha, porque é todo
preto e só tem uma mancha branca na ponta do rabo.
- E como é seu nome?-
perguntou Nico.
- É Diogo.
- E o mesmo nome de meu tio, irmão de minha mãe. O
meu é Nico.
Então os dois saíram pelas
redondezas. De vez em quando, Diogo gritava “ Mancha! Mancha!.
Fora do quintal da casa
antiga começava uma área cheia de vegetação, com árvores e arbustos.
- Vamos olhar lá no mato-
disse Diogo. O Mancha é um grande caçador de preás e vive se embrenhando no
mato.
- O que é preá? - perguntou
Nico.
- É um bicho parecido com um
rato, só que é maior e não tem rabo.
- E por que vocês caçam
preá?
- Ué! Pra comer!- respondeu
Diogo, parecendo surpreso com a pergunta.
“ A família dele deve ser
bem pobre-pensou Nico. Usa umas roupas de pobre, não tem sapato e come rato do
mato”.
Entraram na mata. Logo viram
uns arbustos e capim enrolados, que formavam uma espécie de túnel de mato.
- Vamos por aqui. Nestes
locais tem muitos preás e o Mancha deve ter entrado aqui- orientou Diogo.
Entraram no túnel, gritando:
“ Mancha! Mancha!” Logo, ouviram uns latidos. “ É ele! É ele” disse Diogo, todo
alegre. E foram correndo para o local de onde partiam os latidos. E chegando
lá, viram que os latidos pareciam vir debaixo da terra. Andaram mais um pouco e
viram um buraco. E descobriram que o Mancha havia caído no buraco. E era um
buraco fundo, de uns três metros de fundura.
- Por isso que ele não podia
voltar para casa. Não conseguia sair daí- comentou Diogo.
- Mas como vamos tirá- lo ?
Se a gente descer, não vai conseguir subir também- disse Nico.
- Vou buscar ajuda. Você
fica aqui, e de vez em quando fala com o Mancha. Assim ele fica calmo.
Diogo disse isso e já saiu
correndo para dentro da mata.
Nico ficou no local. De vez
em quando Mancha dava um latido e ele o acalmava.
- Fica tranquilo. O papai
foi ali e já vem.
Passaram-se uns 10 minutos
quando Nico , que estava acocorado, sentiu que uma sombra o cobria. Levantou os
olhos e ... quem estava tapando a luz do
sol? Um índio. Um enorme índio, bronzeado, musculoso, com o peito nu, com
aquele cabelo liso, cortado em forma de cuia e tudo. Só não estava de tanga.
Vestia uma espécie de bermudão branco, parecido com o que o Diogo usava. E
trazia na mão direita uma vareta grossa e um rolo de corda.
Nico já estava começando a
ficar apavorado, quando saiu, de trás do índio, o Diogo.
- Esse é o Quiva. Ele vai
tirar o Mancha do buraco.
O índio, então, enfiou a
vareta no chão, amarrou nele a corda e desceu segurando nela até o fundo do
buraco. Pegou o Mancha e subiu. O cachorro quando viu o Diogo correu pulando
nele, todo feliz.
- Foi bem na hora- disse
Diogo. A tropa já vai partir.
- Que tropa?- perguntou
Nico- que estava achando tudo aquilo muito estranho e ao mesmo tempo
interessante.
- Hoje é dia de levar açúcar
para o porto de Santos. Uma vez por mês a gente faz essa viagem. Meu pai é o
dono da tropa. Você quer ver a tropa de perto?
Claro que Nico quis. No
caminho, notou que eles começaram a andar sobre uma calçada de pedra, de uns
três metros de largura, no meio da mata. “ Essa deve ser a calçada do Lorena.
Mas não parecem em ruínas. Parecem bem novas”.
Durante o trajeto, ele
resolveu fazer várias perguntas. A principal delas seria: por que eles não
usavam a rodovia e um carro para levar o açúcar? Mas a primeira foi: “ Quem é
esse índio?” Diogo respondeu, de novo demonstrando surpresa, como se aquele
tipo de pergunta não tivesse sentido.
- Ora, ele é do meu pai. Meu
pai tem dois índios e dois pretos que ajudam a levar a tropa de burros-
explicou Diogo. Veja, já chegamos no ponto de partida.
Nico nem havia se recuperado daquela
revelação- de que o pai do Diogo era dono de dois indios e dois negros, quando
viu uma cena curiosa. Eram quatro homens, dois negros, um índio e um branco. O
branco era mais velho que os outros, mas
era mais alto e mais forte. Nico concluiu que era o pai do Diogo. Perto deles,
seis burros, com grandes sacos nos lombos. Nico pensou: “ Agora entendi porque
eles não usam a rodovia. A Policia Rodoviária não ia deixar que eles andassem
com essa tropa na rodovia”, pensou Nico.
- Já vamos partir. Obrigado
por ter-me ajudado a procurar o Mancha. Outro dia, se você quiser, pode fazer a
viagem com a gente.
Nico agradeceu.
- Agora preciso voltar para
a casa grande. Devem estar me procurando.
De volta, pelo mesmo caminho
que tinha percorrido, Nico ia pensando naquilo tudo. As imagens daquela tropa
de burros, dos índios, dos negros, aquelas roupas, a estrada de Lorena toda
nova, sem nem parecer que tinha 300 anos. “ Será que eu voltei para o
passado? Refletia.
Aquela cena parecia uns desenhos que viu uma vez em um livro de História do Rica.
Ele lembrou de um filme que
viu na TV, onde uns homens entraram em uma caverna e quando saíram do outro
lado, tinham voltado para o passado. Foram parar no tempo dos dinossauros. Eles
disseram que haviam entrado em um portal do tempo. É verdade que Nico e Diogo não tinham entrado em nenhuma
caverna, mas aquele túnel de mato onde entraram para procurar o Mancha poderia
ser um portal do tempo.
Estava tão distraído com
esses pensamentos que não olhava por onde andava. E acabou caindo no mesmo buraco onde havia
caído o cachorro Mancha.
Ficou apavorado. Quem ia
aparecer para tirá-lo dali? Diogo e seu índio, àquela altura, já deviam estar
descendo a serra pela calçada do Lorena.
Pensou: seus irmãos deveriam
estar procurando por ele. Então, começou a gritar por socorro. Se deu certo com
o cachorro Mancha, podia dar certo com ele.
Gritava olhando para cima,
para a entrada do buraco. Então, viu o rosto de Vale, gritando seu nome. Neste
momento, a paisagem mudou. Nico não estava mais dentro de um buraco, mas
deitado na rede, na varanda da casa grande. Ele tinha dormido na rede e toda
aquela história de Diogo, cachorro Mancha, índios, negros, tropa de burro, não
passara de um sonho.
- Acorda! Está na hora da
gente visitar as ruínas da calçada de Lorena- dizia Vale.
Mais tarde, quando já
estavam em casa, Nico contou para os irmãos o sonho.
- E se eu entrei mesmo em um
portal do tempo, voltei, deitei na rede e dormi de novo?- disse, após fazer seu
relato.
Os irmãos deram risada.
- Essa seria uma boa
história para colocar em um livro- disse Rica.
Todos concordaram.

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