Naquela manhã, como sempre, D.Lorena estava toda atarefada na cozinha, preparando o almoço. Quando os quatro filhos maiores chegassem da escola, viriam, para variar, bem famintos.
Então, oubiu um barulho que conhecia bem: o bebê,Antonio, de um mês , tinha acordado. Largou tudo e foi correndo para o quarto de casal, onde o berço do Antonio ficava. Rápida e prática como sempre, pegou o bebê, aconchegou -o contra o peito com a mão direita e, com a esquerda, pesquisou se ele estava mohado de xixi.
Quando voltou a olhar para o bebê, tomou um susto. Na orelha direita dele e em parte da cabeça, havia uma mancha vermelha. Na hora, achou que fosse sangue e passou a mão nela, em busca de alguma ferida. Estava tremendo. Mas não sentiu, nem viu, nenhum machucado. Achou também aquele sangue meio estranho e , quando o examinou melhor, mais calma, viu que era molho de tomate.
Depois que o susto passou e veio o alívio, veio também a dúvida: como aquele molho tinha indo parar na cabeça do bebê?
Surgiu, então, um suspeito: Martim. E foi rapidamente para a sala, onde o filho de quatro anos brincava com um joguinho de montar.
E por que Martim era o suspeito? Primeiro porque ele era o único dos filhos que estava em casa. Os gêmeos, Victor e Vicente, estavam na creche, os outros, na escola. E Martim não tinha um passado muito bom quando se tratava dos irmãozinhos menores.
Quando os gêmeos eram bebês ( agora estavam com dois anos ), de vez em quando ia no berço e dava uns petelecos nas cabeças deles
A médica de D.Lorena havia explicado que isso era normal. Até o nascimento dos gêmeos, Martim era o mais novo dos irmãos, o caçulinha querido. Quando vieram os novos bebês, chamando a atenção de todo mundo, ele começou a ficar com ciúmes e tentava agredir os irmãozinhos.
Ela aconselhou D. Lorena e o pai Lucas a darem mais atenção para o Martim, sempre fazê-lo participar das coisas dos gêmeos, como, por exemplo, ajudar a lhes dar banhos. " Ele vai se sentir também responsável pelos irmãozinhos e não vai se sentir abandonado", explicou a médica.
O conselho deu certo e Martim parou com os petelecos. Mas, e se agora ele estiver tendo uma recaída com o novo bebê?
Mas, ao ver Martim brincando na sala, com seus cubinhos de madeira, tranquilo, D. Lorena não teve coragem de perguntar para ele sobre o molho de tomate. E se ele fosse inocente? Poderia ficar magoado com suas perguntas. Não era ela quem sempre dizia para os filhos para nunca acusarem ninguém sem provas?
E Martim podia ser inocente, mesmo. Durante toda a manhã, ele não entrou na cozinha. E só na cozinha ele poderia pegar o molho de tomate. Além disso, enquanto ela preparava a macarronada, a bisnaga com o molho sempre esteve perto dela, sob suas vistas, em cima da pia. Ela veria Martim pegá-lo, se ele entrasse para fazer isso.
Sim. Martim era inocente e ponto final. O importante é que a mancha vermelha na cabeça do pequeno Antonio não era de sangue.
Perto do meio dia, chegam as crianças. Val, como sempre, foi direto para a cozinha, ver o que a mãe tinha feito para o almoço. Depois de ter explicado que era macarrão ao molho de tomate, D.Lorena contou a história do molho na cabeça do bebê.
- Já sei, foi o Martim.Disse Val imediatamente.
- De jeito nenhum. Tenho certeza- disse. E já pesquisei direitinho.
Depois de ter entrado no quarto e visto o bebê, que estava dormindo novamente, Val foi até a sala, onde estavam Tom, Ric e Nic e contou o que a mãe lhe havia narrado.
-Oba! Mais um mistério para a gente resolver! - gritou Nic, que se lembrou logo da história do violino desaparecido.
- Isso é muito é estranho mesmo- disse Rica, já fazendo cara de detetive inteligente. E agora ele fazia isso segurando o queixo com a mão direita.
- Vamos na cozinha. Tenho umas perguntinhas para fazer para mamãe.
E todos os três o seguiram até a cozinha. Rica fez a primeira pergunta:
- Mãe, a senhora não saiu da cozinha em nenhum momento?
- Não. Só saí quando fui ao quarto depois que o bebê chorou.
- E qual mesmo era o prato que a senhora estava fazendo?
- Macarrão com molho de tomate.
- Isso explica- interrompeu Tom- a presença do molho de tomate.
- Puxa! Que conclusão inteligente! - disse Nic, que não perdia uma oportunidade de zombar do irmão mais velho.
Rica dirigiu-se rápido para o quarto da mãe. Os outros três atrás. Aproximou-se do berço, olhou-o atentamente e voltou para a cozinha. Os outros três seguiram-no.
- Mãe, a senhora trocou a roupa do berço?
- Não, não foi preciso. Estava tudo limpinho, não havia nem xixi.
Rica colocou a mão no queixo e fez cara de detetive inteligente.
- Agora está ficando tudo claro- disse. Mãe, a senhora estava usando essa mesma roupa o tempo todo?
- Não. Eu estava com aquela jaqueta de brim. Como ela ficou suja com o molho da cabeça do bebê, eu a tirei. Está na área de serviço, em cima da máquina de lavar.
Rica saiu rápido em direção à área de serviço e os três atrás. Lá, pegou a jaqueta da mãe, examinou, estalou o dedo e disse:
- Caso resolvido!
E voltou para a cozinha, com os três nos seus calcanhares.
- Isso esta parecendo aquela brincadeira de siga o chefe, disse Nico.
Na cozinha, Rica dirigiu-se à mãe:
- Foi a senhora a responsável pelo molho de macarrão na cabeça do bebê.
- Como você diz isso? reagiu D.Lorena, indignada. Jamais eu faria uma coisa dessas com meu querido bebezinho.
- Calma, mãe- falou Rica. Eu explico como cheguei a essa conclusão.Quando examinei o berço e vi que ele estava limpinho e a senhora disse que não trocou nada, não foi dificil concluir que a cabeça do bebê não estava suja de molho quando a senhora o pegou.Senão, com os movimentos dele, sujaria, também, o lençol ou o travesseiro.
- Você pode ter razão. Como eu estava nevosa, achando que a mancha era de sangue, nem prestei atenção nisso.
- O que estava suja era sua jaqueta- continuou Rica. Foi ela que sujou o bebê e não o bebê que sujou ela.
- Mas como a jaqueta sujou?-perguntou a mãe.
- . Na hora que o bebê chorou, a senhora estava com a bisnaga na mão, colocou-a rapidament sobre a pia e , neste movimento, deve ter dado um aperto nela e um pingo grosso pulou para a jaqueta.
- Isso acontece mesmo- interrompeu Nico. Lembra aquela vez no Mac Donald`s, quando a Val bateu a bisnaga de mostarda na mesa e voou um pingo no olho do papa .Ele ficou desesperado procurando um guardanapo pra limpar, dizendo que estava ardendo? Foi bem engraçado.
Nesta hora, Martim, que nem de longe sabia o que estava acontecendo,, entrou na cozinha. Lorena pegou- o no colo e começou a abraçá-lo e dar-lhe beijos.
- Meu queridinho, anjinho da mamãe. Você não quer um pedaço de bolo de chocolate?
Martim não entendeu nada. A mãe lhe oferecendo bolo antes do almoço? Mas aceitou. Afinal, ele era pequeno mas não era bobo.

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