terça-feira, 5 de novembro de 2024

UM TEATRO ATRAPALHADO




 


Quem chegou com a novidade em casa foi a Val. Ela comunicou a Tom, Rica e Nico que a escola ia promover um festival de teatro. Os alunos poderiam formar grupos e organizar uma apresentação de até 15 minutos de duração. A melhor ganharia um belo troféu e os membros dos grupos levariam prêmios.

- Vamos formar um grupo- disse Val.

- Legal. Vamos fazer uma peça de teatro contando um misterioso roubo de banco - entusiasmou-se  Rica, sempre um grande admirador de histórias de detetives.

- Não vai ser possível- explicou Val. O tema de cada história será sorteado entre os grupos. A gente não pode escolher a história.

- E quando é que a gente vai saber qual será a nossa história ? perguntou Rica.

- Quando inscrevermos nosso  grupo no festival- informou Val. Agora temos de escolher qual será o nome dele.

- Os cérebros de minhoca- disse Nico.

- Isso é sério - bronqueou a irmã- que conhecia muito bem as zombarias do Nico.

Tom, que por ser o mais velho, sempre procurava ser o mais sensato, sugeriu que o grupo tivesse o nome de um ator de teatro.

- Isso vai ser muito comum- aparteou Rica.

- E meio bobo- completou Nico.

- Vocês lembram quando a gente vai na missa com a mamãe, como o padre José recebe a gente? lembrou Val. Ele diz: chegaram os Lorenos. Que tal batizarmos o grupo de Os Lorenos?

A sugestão foi aprovada na hora.

No outro dia, quando Val foi inscrever o grupo, recebeu a história que havia sido sorteada para eles encenarem. Chamava-se " O rei e o servo".Em casa, ela contou como era.

O rei e a rainha de um reino distante estavam jantando no castelo. Então, chegou a hora de servir a  sopa. Um servo foi chamado para servir. Quando estava servindo , o rei deu um grito. Tinha caído uma gota de sopa na sua capa. " Prendam este homem, levem para a prisão e lhe dêem 20 chicotadas'!  bradou.O servo, ao ouvir isso, jogou o resto da concha de sopa no rei. Ele ficou mais furioso ainda: " Aumentem para 50 chicotadas e o deixem uma semana no calabouço".

O chefe da guardas já ia conduzindo o servo para o castigo, quando a rainha disse: " Tragam esse homem de volta". E perguntou ao servo: " Por que jogou o resto da sopa no rei, deixando você mais encrencado ainda?". O servo respondeu: " Porque na primeira vez, sua majestade cometeu uma injustiça, mandando me chicotear só por causa de uma gotinha. Quando  as pessoas do reino soubessem disso, iam dizer que nosso rei é um monarca  injusto. Amo meu rei e não quero que falem mal dele. Por isso,  joguei a concha de sopa,para que as pessoas dessem razão ao soberano, Afinal, meu castigo seria merecido".

Quando o servo falou isso, todos ficaram emocionados com aquela  demonstração de amor de um súdito por seu rei. Este, então, disse: " Está perdoado. E será promovido a chefe dos servos da corte".

- Eu ainda preferia uma história de roubo de banco- resmungou Rica.

- Mas já disse que a gente não pode escolher, reclamou Val.

Enão começaram os preparativos para a montagem da peça. "Vamos começar já , pois o festival será daqui a uma semana", alertou Val.

Os preparativos começaram meio complicados porque Nico insistia em interpretar o rei.

- Você é muito novo e o rei tem de ser velho- explicou Val. Por isso, será o Tom.

- Mas ele é magricela e o rei tem de ser gordo- protestou Nico.

- A gente coloca um travesseiro na barriga dele- disse Val.

- Vai ser um rei pançudo de canelas finas- continuou Nico.

- Não faz mal- completou Val. Mas você terá um papel importante: vai ser o servo.

Nico ficou satisfeito com a escolha. O chefe dos guardas seria Rica e a rainha, é claro, seria a Val.

A segunda etapa da preparação foi pedir para a mãe fazer as fantasias, mas isso não seria problema: ela sempre fazia as roupas dos teatrinhos que eles apresentavam em casa, para as visitas ou em dias de festas. O dificil, mesmo, foi a mãe concordar com o nome do grupo. 

-Lorenos? Quem foi que teve essa idéia idiota? - perguntou.

- Foi o padre José- respondeu , rápido, Nico.

- Não foi bem assim- disse Val. A senhora não acha que é legal, diferente?

- Por que não põem o nome de seu pai?

- Os Lucas? Aí é que seria meio bobo. Além do mais, papai vai ficar todo orgulhoso por sua causa.

Dona Lorena concordu. Ela nunca resistia aos argumentos da Val.


Chegou, então, o grande dia. O festival de teatro seria realizado no salão de festas da escola, pois ali havia um palco com cortina e tudo.

A platéia estava cheia.Ali estavam alunos, pais, mães, professores. Nas cadeiras da frente, instalou-se a comissão julgadora, formada pelo professor Nelsinho, de Artes; a professora Núbia, de Português e o padre José.

Quatro grupos iam disputar: o grupo Estrelas, que apresentaria a história " Os três porquinhos"; o Grupo Fadinha, com a peça " O menino maluquinho"; a equipe Os Globais, com " A história de uma abelha" e os Lorenos, com " O rei e o servo". A apresentação seria em ordem alfabética e, por isso, os Lorenos seriam os últimos a subir no palco.

Então, chegou a vez deles e eles entraram em cena.

A rainha Val gritou " tragam a sopa!" e apareceu o servo Nico, com a tigela com uma concha dentro. Aproximou-se do rei Tom e derramou sopa no prato dele. O rei deu o grito: " Seu desastrado, caiu uma gota em minha capa". Ordenou, então, ao chefe da guarda Rica que prendesse o servo e o levasse para a cadeia, onde levaria 20 chibatadas.  Era o momento do servo derramar a concha toda de sopa na capa do rei. Aí, a coisa desandou.

Não se sabe onde, mas Nico, ao dirigir-se à mesa, tropeçou. Para não cair e poder se apoiar na mesa, largou a concha, que quicou na mesa e derramou toda a sopa na rainha Val. Ela tomou um susto e recuou. A cadeira adernou e Val, com medo de cair, agarrou-se no braço do rei Tom. Os dois acabaram caindo juntos para trás, com cadeiras e tudo.

Os jurados, que estavam na frente, bem perto do palco, se levantaram, com medo de serem molhados de sopa, que na verdade, não era sopa, era uma água tingida de amarelo.Todo mundo na plateia caiu na gargalhada com a confusão.

Enquanto o servo Nico estava meio paralisado, sem saber o que fazer, o chefe da guarda Rica correu para socorrer a rainha. Ainda caída, Val olhou para Tom e sussurrou: " Não vamos parar. Vamos continuar a peça". Tom levantou-se e ordenou ao guarda que levasse o servo para levar 20 chibatadas. 

Nessa hora, as risadas pararam e todo mundo se ligou na peça. A platéia parecia não acreditar que eles contonuariam a apresentação,apesar do incidente. 

A rainha, então, ordenou ao guarda que  trouxesse o servo à presença do rei. Perguntou por que ele tinha feito aquilo, o servo  falou de seu amor pelo rei, o rei o perdoou e etc e tal. A peça terminou, a patéia aplaudiu, com a mesma intensidade como tinha aplaudido as apresentações dos outros grupos ( o que, para Val, já era um lucro). A  cortina foi fechada.

Os jurados, então, foram para uma salinha do lado, onde funcionava a cozinha do salão de festas, para tomarem suas decisões. Val,Rica, Nico e Tom, assim como os integrantes dos outros grupos, foram para a plateia.Lorena e Lucas receberam os filhos com um ar de consolação.

- Eu acho que a gente vai ficar em quinto lugar- disse Nico.

- Como assim, se só tem quatro grupos?- perguntou Rica.

- Pela lambança que fizemos, acho que não vamos ficar nem no último.

Então, abrem-se as cortinas e surge no palco a comissão julgadora.

- Já temos os resultados- disse o padre José, que era o presidente da comissão. Mas, antes de anunciá-los, informo que criamos um prêmio, chamado Mérito Especial. E o vencedor deste prêmio é...o grupo Lorenos!

Fez-se alguns segundos de silêncio e depois soaram muitos aplausos e até alguns assobios.  O padre José continuou:

- Mas não pensem vocês que é um prêmio de consolação. Eles realmente mereceram. Demonstraram ter espírito de verdadeiros  artistas. O espetáculo deve continuar. Eles levaram a encenação até o fim e transmitiram  a  mensagem da peça, que é de amor e justiça. E ainda por cima, fizeram a gente dar boas gargalhadas.

Mais aplausos e mais alguns assobios. Os Lorenos foram chamados ao palco, onde Valentina, como diretora do grupo, recebeu troféu de mérito. Dona Lorena e Seu Lucas, na platéia, não conseguiam esconder o orgulho de seus filhos.

Depois, foram anunciados os demais vencedores e o primeiro lugar foi para Os Globais, com  " A história de uma abelha". Mas todo mundo concordou, mesmo, que o  momento mais emocionante da premiação  foi o dos Lorenos.

Mais tade, quando voltavam para casa, felizes, Val disse:

- No fim, o grande herói, mesmo, foi o Nico, com aquele tropeção.

- E olhem que eu era apenas o servo- disse Nico. Se eu fosse o rei, como queria desde o começo, era capaz de a gente ficar em primeiro lugar.

E todos gargalharam.


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