domingo, 13 de julho de 2025

ELES SÃO REAIS


As personagens deste blog foram inspiradas nos netos do autor. Veja, nas imagens quem são eles.







 


sexta-feira, 23 de maio de 2025

O PALHAÇO TIMIDINHO E A FOCA TIMIDÃO











Seu Lucas chegou do trabalho e anunciou a novidade:

- Tem um circo na cidade.

- Que bom! Disse Dona Lorena. Quando era pequena eu gostava muito de circo.

- O que é circo? Perguntou Nico.

Seu Lucas explicou: é um lugar onde são realizados espetáculos, com muitas atrações, e geralmente é todo coberto por uma lona, como se fosse uma tenda gigante. E para as crianças entenderem melhor, ele resolveu mostrar alguns espetáculo de circo que tem na internet, principalmente no Youtube.

As crianças ficaram encantadas e assistiram a vários vídeos. Nico estava fascinado pelos palhaços. E decidiu:

- Quando crescer, eu quero ser palhaço.

- De um certo modo, você já é, com sua mania de fazer gracinhas- disse Vale.

Nico não ligou para a gozação da irmã e perguntou ao pai se eles poderiam ir ao circo. Seu Lucas disse que os levaria.

 

No outro dia, quando saiam da escola, Ricardo fez uma proposta aos irmãos:

- Vamos passar onde o circo está sendo montado?

Todos concordaram na hora e foram para o terreno onde o circo estava sendo armado. Havia uma grande movimentação no local, que estava cercado por aqueles carros que parecem uma carroça, onde moram os artistas.

- Esses carros são chamados de trailers- explicou Tomas.

Homens iam para lá e para cá, trabalhando, carregando coisas,

Aproximando-se do local, Rica chamou a atenção para o centro do terreno, onde havia muitos trabalhadores juntos em volta de uma enorme lona no chão

- Eles vão levantar a lona para montar o pavilhão- falou Tomas.

- Como é grande- admirou-se Nico. Quando estiver montada, deve caber um milhão de pessoas embaixo.

Resolveram aproximar-se mais para ver o trabalho. Mas notaram que havia uma cerca de madeira impedindo a entrada naquela área. Ficaram frustrados, olhando de longe. Foi quando Tom viu que um garoto saía de dentro de um dos trailers. Decidiu perguntar para ele como deviam fazer para entrar na área da lona.

- Ei, menino!- gritou.

O garoto tomou um susto. Deu meia volta para entrar de novo no trailer. Mas esqueceu que tinha fechado a porta e deu uma trombada nela. Ficou meio zonzo, saiu cambaleando, tropeçou e caiu em uma poça de água. A cena foi muito engraçada e os irmãos começaram a rir.

Então, o garoto saiu correndo e foi para trás do trailer. Nico foi atrás dele. Logo depois, voltou correndo. Ouvia-se uns latidos e Nico enquanto corria, gritava, assustado

- O cachorro! O cachorro!

Os outros três resolveram também sair correndo. Aí apareceu  o cachorro mais esquisito do mundo. Pois ele não tinha patas, movia-se apoiado em umas espécies de nadadeiras.

- Aquilo não é um cachorro, é uma foca-notou, logo, Tom.

Então eles pararam. Quando Nico, que corria logo atrás os viu pararem, olhou para trás. E não viu a poça de água onde o menino do circo tinha caído momentos antes e caiu nela também.

Os irmãos caíram na risada. Então, apareceu o menino do circo, gritando:

- Para, Timidão! Vem cá!

Timidão deveria ser a foca, pois ela parou imediatamente e voltou para perto do garoto.

Então, Tom, Rica, Vale e Nico aproximaram-se. O menino do circo preparou-se para correr de novo. Aí, Tom perguntou:

- Ela morde?

A foca, que ia indo em direção do garoto, voltou e avançou para cima do  Tom. Deu-lhe uma cabeçada na barriga, Tom se desequilibrou e adivinha onde caiu? Na poça de água onde Nico e o garoto do circo tinham caído antes.

Mais gargalhadas do resto da turma.

 Quando tudo se acalmou, o garoto do circo aproximou-se dos irmãos, meio sem jeito, e pediu desculpas.

- O Timidão não é bravo. Esses ataques dele não machucam, pois ele não morde, só dá cabeçadas. E todo mundo pensa que é um cachorro, pois as focas também dão latidos.

- Se não é bravo, porque atacou o Tom?-perguntou Vale.

- Porque ele chamou ele de ela. O Timidão se irrita com isso porque ele é macho, não fêmea.

Os irmãos acharam aquilo engraçado.

- Toda foca é chamada de ela-disse Vale.

-Assim como toda onça é chamada de ela, seja macho, seja fêmea- afirmou Rica.

- Ninguém chama onça de onço; nem paca de paco, nem cobra de cobro- completou Nico que, como sempre, gostava de exagerar nas explicações.

- Eu sei, mas o Timidão não gosta que pensem que ele é mulher- explicou o garoto.

- Só faltava essa, uma foca machista- observou Vale.

- E você, porque se assustou tanto quando viu a gente?- perguntou Tom.

- Ah, sou assim mesmo. Todo mundo no circo sabe que tenho um pouco de medo das pessoas que não conheço.

- Isso não é medo. É timidez- explicou Vale.

- E é por isso que todos me chamam de Timidinho.

Ficou explicado, então, porque a foca, fiel companheiro dele, era chamada de Timidão.

- E o que você faz no circo?

- Sou palhaço.

Aí ninguém entendeu mais nada. Nico perguntou:

- Como é que um palhaço pode ser tímido? Vocês não têm que ficar fazendo graça, contando piadas, dando cambalhotas?

- Mas quando estou vestido e pintado como palhaço, minha timidez vai embora. Ninguém me conhece..

- E você faz palhaçada sozinho?

- Não. Trabalho com meu pai, que é o palhaço principal do circo, e com  meu tio.

- E como é seu nome de palhaço?

- É Timidinho mesmo.

- E o do seu pai?

- Bofunhento.

Todos deram risada.

- O quer dizer isso?

- Boboca, fuxiqueiro e fedorento.

Mais gargalhadas. Os meninos estavam se divertindo muito no circo, sem mesmo estarem assistindo a um espetáculo.

- Você não está mais com medo da gente, né? Perguntou Tom.

- Não. Depois dessa confusão toda, acabei me acostumando com vocês.

- Bem, é melhor irmos embora, senão a mãe vai ficar preocupada com a nossa demora- lembrou Tom.

Despediram-se de Timidinho e foram para casa.

 

Quando chegaram, Dona Lorena ficou impressionada com a sujeita nas roupas do Tom e do Nico. Mas eles contaram a história toda e ela achou tanta graça que nem brigou com eles. Mandou que tomassem banho e trocassem de roupa.

Nico era o mais animado com a aventura. Quando Seu Lucas chegou do trabalho, depois que eles contaram ao pai o que aconteceu, Nico  perguntou se poderia ser palhaço.

- Quando você crescer, tudo bem. Mas agora tem de se preocupar em ir à escola e estudar.

- Mas eu não preciso ficar grande. O Timidinho tem a minha idade e já é palhaço.

Mas é diferente – explicou Seu Lucas. O menino já nasceu no circo, sua família é de circo, ele sempre viveu em circo. E no circo eles também têm uma escola para as crianças estudarem.

Diante da animação dos filhos, o pai prometeu que as levaria ao espetáculo de estreia do circo, que seria na noite seguinte.

 

Promessa feita, promessa cumprida. Na estreia do circo, lá estavam Dona Lorena, Seu Lucas, Tom, Vale, Rica e Nico. Tudo era iluminado, colorido, movimentado. A lona era coberta de lâmpadas coloridas. A entrada era um portão enorme com luzes piscando. Ouvia-se por todo lado música animada, tocada por uma banda.

Quando entraram, parecia que haviam entrado em um mundo mágico. Todas as pessoas, tanto crianças, como adultos, sentiam logo uma grande alegria, sorriam, as crianças batiam palmas, os adultos faziam comentários.

De repente, as luzes se apagaram e só o picadeiro, um grande círculo no centro do pavilhão, ficou iluminado. Houve um grande silêncio por uns segundos. A banda começou a tocar uma marcha rápida e ouviu-se uma voz forte:

- Senhoras e senhores! Vai começar o espetáculo!

A música ficou mais intensa e animada. Teve início, então, o desfile dos artistas. Dona Lorena explicou para os meninos que os espetáculos de circo sempre começavam assim, com todos os artistas desfilando para a plateia.

Havia malabaristas, gente fazendo ginástica, bailarinas; uns cavalos grandes, enfeitados, montados por moças graciosas, e os palhaços.

- Aquele lá deve ser o Timidinho! Gritou Nico, apontado para um palhaço pequeno no meio de dois grandões. Todos usavam roupas coloridas, muito grandes, calças frouxas, sapatos grandes e pontudos e as caras pintadas.

- E aquele grandão deve ser o Bofunhento- completou Vale.

Depois que o desfile acabou, o apresentador anunciou a primeira atração.

Eram ginastas, duas mulheres e dois homens. Eles fizeram acrobacias incríveis. Davam cambalhotas, saltavam uns por cima dos outros e no final formaram uma pirâmide humana. Saíram bastante aplaudidos.

Depois, vieram os malabaristas, jogando argolas, bolas, e bastões para o alto e agarrando-os antes deles caírem. Também foram muito aplaudidos.

Então, o apresentador anunciou:

- E agora, a alegria do circo: os Bofunhentos!

Entraram correndo e dando trombadas uns nos outros o Bofunhento pai, Timidinho e o outro palhaço, primo dele.

Timidinho estava com o rosto todo pintado, como um palhaço costuma ter, tinha um narigão vermelho, calçava uns sapatos enormes, usava calças muito largas. Correndo atravessou o picadeiro, mandando beijinhos para a plateia.

Depois, voltou correndo de costas. Então, tropeçou e caiu em uma mini piscina de água. Foi uma gargalhada só na plateia. O Bofunhento foi socorrê-lo, ajudando-o a sair da piscininha.

Nessa hora, ouviu-se alguém gritando:

_ O cachorro! O cachorro!

 O outro palhaço, que havia saído por uns instantes do picadeiro, agora voltava, trazendo uma foca presa a uma coleira. Era o Timidão, também vestido quase como um palhaço. Ele latia alto.

Quando os dois aproximaram-se do Timidinho e do Bofunhento, o palhaço disse.

- Achei essa foca lá fora. Ela é de vocês?

Quando ele falou “ela”, Timidão deu lhe uma cabeçada no bumbum. Ele saiu cambaleando, trombou no Timidinho que trombou no Bofunhento e os três caíram na piscininha.

A plateia morreu de rir e os três palhaços, junto com a foca, saíram correndo do picadeiro.

- Eles repetiram no espetáculo o que aconteceu com a gente ontem - lembrou Tom.

Então, decidiram falar com Timidinho.

- Não sei se vai ser possível- disse seu Lucas. Agora os artistas vão se trocar, tomar banho, jantar e descansar.

- Mas é só por um instante e o Timidinho é nosso amigo- implorou Nico.

O pai, depois de consultar Dona Lorena, concordou e foram para a área dos trailers. Ali havia grande arrumação, com os trabalhadores guardando os objetos usados no espetáculo, fazendo limpezas, carregando coisas.

As crianças sabiam onde ficava o trailer do Timidinho e foram direto para lá. Quando se aproximaram, Timidinho, que ainda estava vestido de palhaço, os viu, deu um grande sorriso e veio na direção deles.

-  Meus amigos! Que bom que vocês vieram!

As crianças o apresentaram a Dona Lorena e a Seu Lucas.

- Vocês aproveitaram no espetáculo de hoje aquela confusão que fizemos aquele dia- recordou Rica.

- Contei a história para meu pai e ele achou muito engraçada. Então, resolveu colocar no nosso número. Fez um sucesso grande, né?

- Cadê o Timidão? Perguntou Vale.

- Ele já está na casinha dele. Gosta de dormir cedo.

A seguir, Timidinho quis apresentar os pais. Entrou no trailer e saiu, acompanhado do pai (que já estava sem a roupa de palhaço) e da mãe. Era uma mulher muito bonita e Vale lembrou que era uma das malabaristas que se apresentaram no espetáculo.

 - Essa aí é a dona Bofunhenta- disse Nico, baixinho, para Rica.

- Estamos fazendo um churrasco. Está quase pronto. Vocês não querem jantar com a gente? .

Eles aceitaram.

- Querido- disse ela dirigindo-se ao Timidinho-vá tirar essa fantasia. Como eles são seus bons amigos, não tem problema, não é?

- Claro que não, mãe respondeu imediatamente Timidinho.

Pegou no braço de Nico e convidou:

- Vamos comigo até o camarim?

- O que é isso? – indagou Nico.

- É o lugar onde os artistas se arrumam. Vestem e tiram os uniformes e fantasias, se pintam.

- Nico concordou na hora. Ele, enfim, ia conhecer o camarim de um palhaço.

Passaram-se uns dez minutos, e a mãe de Timidinho apareceu com uma travessa cheia de pedaços de um cheiroso churrasco.

- Precisamos chamar o Nico e o Timidinho antes da comida esfriar- disse Dona Lorena.

Nem tinha acabado de falar e apareceu o Timidinho. Sem nenhuma fantasia, o rosto lavado. Aproximou-se de todos e gritou, como se fosse um apresentador de espetáculo:

- E agora, senhores e senhores, a nova alegria de nosso circo:  o palhaço Assanhadinho.

E vem correndo, dando cambalhotas, fazendo firulas, com um sorriso muito aberto,  o Nico, todo fantasiado, com cara pintada, narigão, sapatões, calças frouxas.

Pelo menos naquele dia ele havia realizado seu sonho de ser palhaço.


terça-feira, 20 de maio de 2025

A ELEIÇÃO DOS HERÓIS








 

 

Quando o professor de História entrou na cantina da escola, ouviu dois gritos:

- É o Super-homem!

- É o Batman!                                                          

Ele viu que os gritos partiam de uma mesa onde estavam os irmãos Tom e Rica.

- Vocês estão brigando?-perguntou.

- Nâo- respondeu Tom. Apenas estamos discutindo sobre quem é o  melhor dos heróis.

- É o Batman, claro- interrompeu Rica.

- Já lhe disse que é o Super-Homem.Todo mundo sabe disso- afirmou Tom.

- Todo mundo quem? Perguntou Rica.
O professor viu que aquela conversa ia longe.

- Por que a gente não faz uma eleição para decidir quem é o preferido?

- Eleição? Como assim? indagou Rica.

- Ora, quando se quer decidir se alguém é o melhor, costuma-se fazer eleições. É assim que é escolhido o presidente da República, o prefeito. O candidato que tiver mais votos, é , sem dúvida, o preferido das pessoas para governar o País ou nossa cidade. Isso se chama Democracia.

- Mas como vamos fazer uma eleição para eleger o melhor herói? E quem vai votar? Perguntou Tom.

- Vamos fazer a votação aqui na escola, entre os alunos. Eu cuido de organizar tudo.

Ficou combinado que a eleição seria dali a três dias. Dois dias seriam para  eles fazerem a campanha de seus candidatos. O professor explicou que campanha é o trabalho dos candidatos para conseguirem votos.

Os dois irmãos gostaram daquela história.

- O Super-Homem vai ganhar fácil. Todo mundo gosta dele- disse Tom.

- Você que pensa. Tenho muitos amigos e todos eles gostam do Batman- respondeu Rica.

 

Em casa, a discussão continuou no quarto das crianças. Ao ouvir a falação, Vale e Nico entraram.

- Vocês não estão brigando, né? Perguntou Nico, sempre mais curioso.

Rica e Tom explicaram tudo.

- Eu não gosto de nenhum desses dois heróis- disse Nico.

- Por quê?- perguntou Tom. O Super-Homem tem super-força, visão de raio-X, que lhe permite olhar através das coisas; voa mais rápido que um avião e muito mais.

- Mas ele só tem isso por que veio de outro planeta- rebateu Nico. É  a luz do nosso  sol, que é amarela, que lhe dá aqueles poderes. Lá no planeta dele , onde o sol é vermelho, acho que ele é mais fraco que a Vale.

Vale que estava quieta, acompanhando a conversa, fez uma cara de zangada.  Nico completou:

- E tem aquela roupa ridícula. Parece que ele está vestindo a cueca por cima das calças.

Foi a vez do Tom fazer cara de zangado. Rica riu e perguntou:

- E por que você não gosta também do Batman? Eu acho que ele é melhor porque faz muitas coisas incríveis sem precisar ter super-força. É muito inteligente, rápido e luta bem. E o que mais admiro nele é aquele jeito  misterioso, a máscara do morcego, a batcaverna, o batmóvel.

- Com aquela máscara ele parece é um rato grande- contestou Nico. E nem luta sozinho. Precisa de um amigo , o Robin, para ajudá-lo.

Tom e Rica sentiram logo que se dependessem do voto de Nico, nenhum  de seus heróis seria eleito. Vale resolveu participar da conversa:

- Sabem... Eu acho que...

Mas os dois nem quiseram ouvi-la.

- Olha Vale, esse negócio de heróis não é assunto de menina. Vocês gostam é da Barbie, do Pequeno Pônei , que não são heróis- disse Rica.

Vale fez cara de zangada de novo:

- Fiquem vocês sabendo que já passei da idade de gostar da Barbie e do Pequeno Pônei. E não gosto mesmo desses heróis bobocas de vocês. O que eu ia falar era outra coisa, mas não vou falar mais.

E saiu pisando duro.

 

À noite, quando seu Lucas chegou do trabalho, Rica pediu ao pai que ele lhe comprasse uma camiseta do Batman. Ele contou a história das eleições dos heróis e disse que ia usar a camisa para fazer campanha na escola.

- Bom, então vou comprar uma camisa do Super-Homem para o Tom- disse seu Lucas.

No outro dia, todo mundo na escola já sabia da eleição, pois o professor de História havia colocado cartazes de cartolina na entrada do pátio, na cantina e nas salas de aula.

Tom e Lucas começaram  a pedir votos para seus amigos. No final do dia, cada um deles achava que ia ganhar. E ainda tinham mais um dia para fazer campanha.

Os dias de campanha passaram e chegou o dia da eleição. Os alunos deveriam escrever o nome de seu herói preferido em um papel e colocar em uma caixa de papelão que ficava na cantina. A contagem dos votos seria feita pelo professor de História e pela professora de Artes, na cantina mesmo e na frente de todo mundo.

 Tom e Rica haviam feito uma aposta:  se o Super-Homem ganhasse, o Rica  teria, como castigo de perdedor,  de ficar uma semana usando a camiseta do Super-Homem. E se o Batman ganhasse, o Tom teria de ficar uma semana vestindo a camiseta do Batman.

Na hora da contagem dos votos, a expectativa era grande. O professor de História tirava o voto da caixa e lia em voz alta. A professora de Artes anotava em um papel.Na leitura do primeiro voto, todo mundo caiu na gargalhada. Era para a Mulher Maravilha, aquela heroína que usa um laço encantado para combater os bandidos.

O segundo voto, também.

Mas o terceiro foi para o Super-Homem, o quarto para o Batman e começaram os gritos de torcida. Mas o quinto e o sexto votos foram para a Mulher Maravilha.

E aí a situação começou a ficar estranha. Era um voto para o Homem Morcego, um para o superforte e dois para a Mulher Maravilha. E, no final, a grande surpresa: a Mulher Maravilha ganhou, ficando o Batman e o Super Homem empatados em segundo lugar.

Tom e Rica só entenderam o que tinha se passado quando viram as meninas gritando e comemorando. Elas é que tinham garantido a vitória da super-heroína.

De volta para casa, irritados, eles, que haviam passado os últimos dias como adversários, tornaram-se aliados. Ficaram  analisando,juntos, a situação.

- Na campanha toda, ninguém falou em Mulher Maravilha. As disputa era só entre o Super Homem e o Batman- disse Rica. Como é que aquela heróina mixuruca apareceu nessa história?

                                                                                                                             

Entraram em casa com ares preocupados, quando deram de cara com a Vale,que olhava para eles com ar de gozação.

- Você tem alguma coisa a ver com o que aconteceu? Perguntou Tom.

- Mas é claro- respondeu Vale. Enquanto vocês ficavam como dois patetas, usando aquelas camisetas ridículas, conversando com seus amigos, eu falava com as meninas. Pedia para elas votarem na Mulher Maravilha. Uma coisa que vocês não prestaram atenção é que a escola tem mais meninas do que meninos.Por isso, nós ganhamos.

- Mas nós não vimos campanha nenhuma pela Mulher Maravilha. Ninguém pedia voto para ela- disse Rica.

- É porque eu pedi segredo para todas elas. A gente queria fazer uma surpresa e fizemos. Nós mulheres não temos super-força mas temos super-inteligência- concluiu Vale. E saiu, rindo.

Nico , que até ali estava calado, resolveu dar seu palpite.

- Eu acho que vocês dois não deviam ficar muito tristes.As coisas não foram tão ruins assim.

- Por que? -perguntou Tom, já esperando uma gozação.

- Ora, vocês não fizeram nenhuma aposta com a Vale. Senão, iam ficar uma semana usando roupa de Mulher Maravilha.

terça-feira, 6 de maio de 2025

AVENTURA NA CALÇADA DA MAMÃE







 - Mamãe, a senhora sabia que tem uma calçada?

Quando Vale fez a pergunta, Dona Lorena parou de limpar a mesinha da sala, olhou para ela com um sorriso maroto e respondeu:

- Só se for aquela calçada da frente, que toda semana tenho de lavar para tirar o cocô dos cachorros.

- Nada disso- disse Vale. A sua calçada é até histórica.

- Então me explica isso.

Vale então explicou que existe na Serra do Mar um monumento histórico chamado Calçada do Lorena. Hoje está toda estragada, em ruínas, mas 300 anos, atrás era muito importante porque era por ela que as riquezas de São Paulo iam para o Litoral,  para serem embarcadas no porto de Santos. E também era por ela que as mercadorias que chegavam no porto eram transportadas para São Paulo.

- Puxa! E como é que você soube de tudo isso?-perguntou Dona Lorena.

- Foi o professor de História que contou. No começo , era difícil subir e descer  as mercadorias pela Serra do Mar, que é muito alta. Não havia estradas e as cargas tinham de ser levadas pelos escravos, negros e índios. Então, fizeram a calçada, toda de pedra. Ela começava na cidade de São Bernardo e terminava em Cubatão, perto de Santos. E as cargas passaram a  ser transportadas em lombos de burros.

- Puxa, você aprendeu direitinho a lição- admirou-se a mãe.

- E sabe por que ela se chama calçada do Lorena?

- Não.

- Porque o governador que mandou construí-a chamava-se Lorena.

- Ah! Então era um homem? Vou brigar com meus pais por terem me dado um nome de homem- brincou Dona Lorena.

- Lorena era o sobrenome. O nome dele completo era Bernardo de Lorena.

- Ah! Então, seu Paulo e dona Leda estão perdoados.

- Pois é. E agora, vou lhe dar a melhor notícia: a escola vai fazer uma excursão para levar os alunos para conhecerem as ruínas da estrada.

- E quando será isso?

- Na segunda-feira. A gente tem de acordar cedinho pois vamos pegar o ônibus na escola.

- Então, precisamos nos preparar, arrumar roupa, lanche, essas coisas- completou Dona Lorena, sempre prática.

 

Na segunda-feira, Vale, Rica, Tom e Nico foram acordados bem cedo por Dona Lorena. Nico, que não gostava de acordar cedo, resmungou:

-  Quero dormir mais um pouco. Vocês vão na frente e mais tarde eu vou.

- Muito engraçadinho. Pode tratar de se levantar.

Quando chegaram na escola, já estavam lá vários colegas, o professor de História e a professora de Educação Física. Todos muito animados com a viagem. Só Nico não demonstrava muita animação e os irmãos sabiam porquê. Ele não gostava de acordar cedo. Todo dia era a mesma coisa: ficava emburrado e só se animava mesmo depois que chegava na escola e encontrava os amigos. Mas nesse dia ele estava mais azedo porque tinha acordado mais cedo do que nos outros dias. “ Quem é que precisa ver uma calçada velha?”

Durante a viagem, todo mundo ficava olhando pela janela, vendo a paisagem, fazendo comentários divertidos.  Nico ficou cochilando, apoiado no ombro da Vale, ao lado de quem havia se sentado.

Uma hora depois, chegaram no local da excursão. O ônibus saiu da rodovia, entrou em uma estradinha estreita, com bastante árvores em cada lado. Estava entrando na Serra do Mar. Logo atravessou uma porteira e parou diante de uma casa antiga.

- Vamos descendo pessoal- gritou professor de História.

Tudo ali era diferente. Só se ouvia o canto de pássaros e outros barulhos que costuma se ouvir em florestas, como um galho caindo, o ruído do vento.

- Primeiro nós vamos entrar na casa grande, para conhecer o nosso guia. Lá tem um pequeno museu, com coisas bem interessantes- disse o professor.

Entraram na casa e o museu era, realmente bem legal. Havia quadros, arreios de animais, roupas, móveis, objetos de cozinha, armas, ferramentas,tudo do tempo antigo. As crianças, curiosas, faziam muitas perguntas, que eram respondidas pacientemente pelo professor e pelo guia.

- Antes da gente ir ver a calçada de Lorena, o guia vai dar algumas orientações sobre como se comportar na caminhada- informou o professor.

O guia começou a falar e Nico começou a cochilar em pé. Em certo momento, aproveitou que o pessoal estava distraído, prestando atenção na palestra, e resolveu sair dali, sem ninguém notar.

Atravessou a sala do museu e foi para a varanda. Então, notou que na varanda havia uma rede. Resolveu sentar nela e ficar balançando.

Estava naquele vaivém, quando apareceu um garoto, do mesmo tamanho dele e parecendo ter a mesma idade, nove anos. Era bem diferente dos demais garotos que Nico conhecia. Era bem queimado de sol, quase moreno. O que chamava a atenção eram as roupas. Vestia um camisolão branco, de um tecido grosso, que ia até os joelhos e usava um bermudão, cujas pernas iam bem abaixo dos joelhos. E estava descalço.

- Você viu o meu cachorro? Perguntou o garoto, sem nem se apresentar.

Nico respondeu à pergunta com outra pergunta, como costumava fazer às vezes:

- O que aconteceu com seu cachorro?

- Ele sumiu. Não encontro em lugar nenhum e estou preocupado, pois ele nunca faz  isso.

E já ia se retirando, quando Nico o chamou:

- Se quiser, ajudo você a procurá-lo. Como é que ele se chama?

- Mancha, porque é todo preto e só tem uma mancha branca na ponta do rabo.

- E como é seu nome?- perguntou Nico.

- É Diogo.

- E o  mesmo nome de meu tio, irmão de minha mãe. O meu é Nico.

Então os dois saíram pelas redondezas. De vez em quando, Diogo gritava “ Mancha! Mancha!.

Fora do quintal da casa antiga começava uma área cheia de vegetação, com árvores e arbustos.

- Vamos olhar lá no mato- disse Diogo. O Mancha é um grande caçador de preás e vive se embrenhando no mato.

- O que é preá? - perguntou Nico.

- É um bicho parecido com um rato, só que é maior e não tem rabo.

- E por que vocês caçam preá?

- Ué! Pra comer!- respondeu Diogo, parecendo surpreso com a pergunta.

“ A família dele deve ser bem pobre-pensou Nico. Usa umas roupas de pobre, não tem sapato e come rato do mato”.

Entraram na mata. Logo viram uns arbustos e capim enrolados, que formavam uma espécie de túnel de mato.

- Vamos por aqui. Nestes locais tem muitos preás e o Mancha deve ter entrado aqui- orientou Diogo.

Entraram no túnel, gritando: “ Mancha! Mancha!” Logo, ouviram uns latidos. “ É ele! É ele” disse Diogo, todo alegre. E foram correndo para o local de onde partiam os latidos. E chegando lá, viram que os latidos pareciam vir debaixo da terra. Andaram mais um pouco e viram um buraco. E descobriram que o Mancha havia caído no buraco. E era um buraco fundo, de uns três metros de fundura.

- Por isso que ele não podia voltar para casa. Não conseguia sair daí- comentou Diogo.

- Mas como vamos tirá- lo ? Se a gente descer, não vai conseguir subir também- disse Nico.

- Vou buscar ajuda. Você fica aqui, e de vez em quando fala com o Mancha. Assim ele fica calmo.

Diogo disse isso e já saiu correndo para dentro da mata.     

Nico ficou no local. De vez em quando Mancha dava um latido e ele o acalmava.

- Fica tranquilo. O papai foi ali e já vem.

Passaram-se uns 10 minutos quando Nico , que estava acocorado, sentiu que uma sombra o cobria. Levantou os olhos e ...  quem estava tapando a luz do sol? Um índio. Um enorme índio, bronzeado, musculoso, com o peito nu, com aquele cabelo liso, cortado em forma de cuia e tudo. Só não estava de tanga. Vestia uma espécie de bermudão branco, parecido com o que o Diogo usava. E trazia na mão direita uma vareta grossa e um rolo de corda.

Nico já estava começando a ficar apavorado, quando saiu, de trás do índio, o Diogo.    

- Esse é o Quiva. Ele vai tirar o Mancha do buraco.

O índio, então, enfiou a vareta no chão, amarrou nele a corda e desceu segurando nela até o fundo do buraco. Pegou o Mancha e subiu. O cachorro quando viu o Diogo correu pulando nele, todo feliz.

- Foi bem na hora- disse Diogo. A tropa já vai partir.

- Que tropa?- perguntou Nico- que estava achando tudo aquilo muito estranho e ao mesmo tempo interessante.

- Hoje é dia de levar açúcar para o porto de Santos. Uma vez por mês a gente faz essa viagem. Meu pai é o dono da tropa. Você quer ver a tropa de perto?

Claro que Nico quis. No caminho, notou que eles começaram a andar sobre uma calçada de pedra, de uns três metros de largura, no meio da mata. “ Essa deve ser a calçada do Lorena. Mas não parecem em ruínas. Parecem bem novas”.

Durante o trajeto, ele resolveu fazer várias perguntas. A principal delas seria: por que eles não usavam a rodovia e um carro para levar o açúcar? Mas a primeira foi: “ Quem é esse índio?” Diogo respondeu, de novo demonstrando surpresa, como se aquele tipo de pergunta não tivesse sentido.

- Ora, ele é do meu pai. Meu pai tem dois índios e dois pretos que ajudam a levar a tropa de burros- explicou Diogo. Veja, já chegamos no ponto de partida.

 Nico nem havia se recuperado daquela revelação- de que o pai do Diogo era dono de dois indios e dois negros, quando viu uma cena curiosa. Eram quatro homens, dois negros, um índio e um branco. O branco era  mais velho que os outros, mas era mais alto e mais forte. Nico concluiu que era o pai do Diogo. Perto deles, seis burros, com grandes sacos nos lombos. Nico pensou: “ Agora entendi porque eles não usam a rodovia. A Policia Rodoviária não ia deixar que eles andassem com essa tropa na rodovia”, pensou Nico.

- Já vamos partir. Obrigado por ter-me ajudado a procurar o Mancha. Outro dia, se você quiser, pode fazer a viagem com a gente.

Nico agradeceu.

- Agora preciso voltar para a casa grande. Devem estar me procurando.

 

De volta, pelo mesmo caminho que tinha percorrido, Nico ia pensando naquilo tudo. As imagens daquela tropa de burros, dos índios, dos negros, aquelas roupas, a estrada de Lorena toda nova, sem nem parecer que tinha 300 anos. “ Será que eu voltei para o passado?  Refletia.

Aquela cena parecia uns desenhos que viu uma vez em um livro de História do Rica.

Ele lembrou de um filme que viu na TV, onde uns homens entraram em uma caverna e quando saíram do outro lado, tinham voltado para o passado. Foram parar no tempo dos dinossauros. Eles disseram que haviam entrado em um portal do tempo. É verdade que  Nico e Diogo não tinham entrado em nenhuma caverna, mas aquele túnel de mato onde entraram para procurar o Mancha poderia ser um portal do tempo.

Estava tão distraído com esses pensamentos que não olhava por onde andava.  E acabou caindo no mesmo buraco onde havia caído o cachorro Mancha.

Ficou apavorado. Quem ia aparecer para tirá-lo dali? Diogo e seu índio, àquela altura, já deviam estar descendo a serra pela calçada do Lorena.

Pensou: seus irmãos deveriam estar procurando por ele. Então, começou a gritar por socorro. Se deu certo com o cachorro Mancha, podia dar certo com ele. 

Gritava olhando para cima, para a entrada do buraco. Então, viu o rosto de Vale, gritando seu nome. Neste momento, a paisagem mudou. Nico não estava mais dentro de um buraco, mas deitado na rede, na varanda da casa grande. Ele tinha dormido na rede e toda aquela história de Diogo, cachorro Mancha, índios, negros, tropa de burro, não passara de um sonho.

- Acorda! Está na hora da gente visitar as ruínas da calçada de Lorena- dizia Vale.

 

Mais tarde, quando já estavam em casa, Nico contou para os irmãos o sonho.

- E se eu entrei mesmo em um portal do tempo, voltei, deitei na rede e dormi de novo?- disse, após fazer seu relato.

Os irmãos deram risada.

- Essa seria uma boa história para colocar em um livro- disse Rica.

Todos concordaram. 

 












sábado, 16 de novembro de 2024

O CASO DA MULHER QUE PEGAVA AS COISAS







Era época de festas de Natal e na escola o professor de Artes pediu para que os alunos formassem grupos e fizessem objetos de decoração para a data: árvores de Natal, presépios, estrelas de Belém ou outros tipos de enfeites. Depois, podiam levar os objetos para suas casas.

Tom, Val, Rica e Nico resolveram fazer um presépio. Como o presépio que eles planejaram era um pouco grande, o professor orientou que eles fizessem em peças separadas, porque inteiro seria ficar difícil levá-lo para casa. 

Assim, no dia de levar para casa, cada um levou uma parte. Rica ficou encarregado de levar o telhado do celeiro; Tom, que era o maior, ia levar o resto do celeiro. Nico ficou responsávl por carregar a manjedoura e a Val levaria as imagens de São José, Nossa Senhora, Menino Jesus e os  anjinhos.

Quando estavam perto do portão de casa, ouviu-se um grito:

- Rica,  tenho um album novo de figurinhas para lhe mostrar.

Era o Isaías, vizinho dos Lorenos, muito amigo do Rica. Este, que gostava bastante de colecionar figurinhas, principalmente de times de futebol, imediatamente parou. Os outros  irmãos entraram em casa.

Dona Lorena pediu que eles deixassem as partes do presépio na sala e fossem lavar as mãos, pois o lanche da tarde estava pronto.

- Onde está o Rica?- perguntou.

- Ele está lá na frente conversando com o Isaías- respondeu Val.

- É bom que ele venha logo, senão o lanche esfria.Eu fiz cachorro quente.

Logo o Rica apareceu, folheando um álbum de  figurinhas.

- Ei! Cadê o telhado do presépio? alertou Nico.

- Puxa! Esqueci lá fora! respondeu Rica. E saiu correndo.

Passaram-se alguns minutos e ele não voltava. Dona Lorena pediu para que alguém fosse buscá-lo. Nico,sempre mais esperto e rápido, foi. Encontrou Rica saindo da casa do Isaías e atravessando a rua, com uma cara preocupada. 

- O que aconteceu? perguntou Nico.

- O telhado do presépio desapareceu- respondeu Rica. Fui na casa do Isaías, para saber se ele tinha pegado,mas ele disse que não.

Entraram em casa. Rica relatou o caso para Val e Tom.

- Mas como isso foi acontecer?

- Quando o Isaías me chamou e falou do album de figurinhas, eu coloquei o telhado do presépio em cima do muro para poder folheá-lo. Ele disse que eu podia trazer para casa, para olhar com mais calma, depois eu devolvia. Eu fiquei tão distraído folheando que vim logo para casa e nem lembrei de pegar  o telhado em cima do muro. Quando voltei, ele não estava mais lá.

- Mas quem ia querer pegar aquilo? Ele só serve em nosso presépio. Além disso, é feito de isopor e alguns pedaços de madeira. Para quê serviria esse material ? perguntou Val.

- E se a gente se espalhasse e saísse pelo bairro procurando? convidou Tom.

- Nada disso- interveio Dona Lorena. Todo mundo vai lanchar e ninguém sai mais de casa hoje. Já está anoitecendo e não é hora de criança estar na rua. Vão procurar amanhã.

- Mas mãe- choramingou Rica- amanhã gente pode não encontrá-lo mais.

- Paciência. Depois vocês fazem outro telhado.

Obedientes, eles não insistiram. Mais tarde, na hora de dormir, no quarto dos meninos, Rica dirigiu-se ao Tom.

- Eu tenho uma idéia de quem pode ter pegado o telhado.

Quando ouviu isso, Nico, que estava lendo uma revistinha, se aproximou. Rica estava cam aquela cara de detetive inteligente que fazia quando decidia resolver um mistério.

- Quem é que vive rodando pelo bairro, sempre pegando tudo que vê pela frente, mesmo coisas que não servem para ninguém?

- A Dona Geru- responderam Tom e Nico quase ao mesmo tempo. Quem não conhecia Dona Geru? Era uma senhora sempre vista puxando um carrinho de compras, desses que têm em supermercados. Dentro dele. muitas tranqueiras.Coisas  que ela pegava pelas ruas, nas latas de lixo ou pedia para as pessoas. Podia ser uma vassoura sem cabo, ou um cabo sem vassoura, uma roda de carrinho, rolos de fio ou barbante. Quando ela passava perto de uma obra em construção, pedia alguma coisa para os trabalhadores, perdaços de madeira, tijolos, um pouco de cimento ou de areia.

Mas Dona Geru não era mendiga. Era viúva e  morava  em uma casa antiga, no fim da rua da Igreja. A casa ficava separada da igreja por dois terrenos baldios,cheios de mato. Por isso, ela era uma pessoa isolada. 

Andava vestida de um jeito esquisito, geralmente um roupão com capuz. Como, além disso, morava isolada, as crianças do bairro diziam que ela devia ser uma bruxa.

Rica apresentou um plano para os irmãos: no outro dia, na volta da escola, eles passariam na casa de Dona Geru, para perguntar se ela tinha pegado o telhado do presépio.

- Eu não vou- atalhou logo Nico.E se ela resolver transformar a gente em camundongos?

- Deixa de bobagem- disse Tom. Bruxas não existem. Não precisa ter medo.

Nico se convenceu. Afinal, se havia uma coisa que ele gostava era de uma aventura com os irmãos. No outro dia, na ida para a escola, explicaram o plano para Val, que também topou  participár.

Na volta da escola, foram direto para a casa de dona Geru. Como toda casa antiga, ela era grande, com muros altos. Tinha um quintal comprido na frente, coberto de mato. Entre o portão e a casa, passando no meio do mato, havia um caminho calçado de pedra. 

- Parece mesmo uma  casa de bruxa! murmurou Nico, quando se aproximaram.

Procuraram uma campainha para chamar a moradora, mas não havia. Então, Tom bateu palmas. Esperaram mas ninguém atendeu.

- Acho bom a gente ir embora. Dona Geru não está- disse Val, que parecia um pouco impressionada com a aparência do lugar. 

- É melhor a gente entrar e bater na porta- sugeriu Rica.

- E se tiver um cachorro?- alertou Val.

- Se tivesse, ele teria latido quando batemos palmas-tranquilizou Rica.

- E além disso, bruxa não tem cachorro, tem gato- brincou Nico.

Entraram, pois o portão não estava trancado.

Tom bateu na porta da frente, esperaram um pouco, mas também ninguém atendeu. 

- Vou bater mais forte- disse Rica. E quando bateu, a porta abriu. Ela não estava trancada. 

- Nos livros de história de mistério, as portas das casas velhas sempre abrem sozinhas. Acho melhor a gente ir embora- disse Val, ainda impressionada .

- Bobagem. Se a porta está aberta  é sinal de que dona Geru está em casa. Deve estar lá nos fundos e não escutou a gente. Vamos dar a volta.

E como sempre seguiam Rica quando esse falava alguma coisa com ar de inteligente , lá foram eles dar a volta na casa.Havia nos fundos uma área de serviço que, como toda casa antiga, se ligava à cozinha. Tom notou que a porta da cozinha estava aberta.

- Acho que ela está na sala- disse. Entraram devagar na cozinha e foran até a sala. Então, ouviram um grito horrível:

- Ghhgaaaa!

E viram, logo a seguir, uma cena aterrorizante. De costas para a janela da sala, que tinha uma cortina preta, e de frente para eles, dona Geru estava flutuando mais de um metro acima do chão. Balançava os braços e repetia:

- Ghhgaaaa! Ghgaahhhh!

As crianças sairam em disparada. Em poucos segundos passaram pela cozinha, pela área de serviço, pelo lado da casa e chegaram ao portão . Só quando estavam na esquina, pararam, cansados,mal podendo respirar.

- Eu não disse que ela era uma bruxa! Estava voando. Só uma bruxa pode voar daquele jeito- disse Nico.

- E que grito apavorante! falou Val.

Tom estava calado, pensativo. Rica disse, mais calmo:

- Tem alguma coisa estranha ali.

- É claro que tem!- interrompeu Nico. Tem uma bruxa voando e gritando ggghaaaa!  È bom a gente ir pra casa antes que ela nos persiga e nos transforme em camundongos.

- Eu acho que a gente deve voltar lá=- disse Rica.

- Não acho isso bom- afirmou Tom, sempre sensato.

- Mas acontece que notei uma coisa que pode explicar aquela cena esquisita.

" Só o Rica, mesmo, para notar alguma coisa no meio de uma cena de terror como aquela", pensou Val.

- Vamos voltar- insistiu Rica 

Rica estava com seu ar de detetive inteligente e quando ele ficava assim, os irmãos sempre o seguiam.

Chegaram na casa, desta vez muito mais cautelosos. Rica ia na frente,seguido por Tom. Depois vinha Val, uns três passos atrás e NIco, de olhos arregalados, atrás dela.

Quando entraram na cozinha, Rica pediu que eles ficassem mais para trás, pois seria mais fácil ele se aproximar da porta da sala sem serem notados.Ele chegou perto da porta, olhou para dentro e, de repente, ouviu-se, de novo, o grito horrível:

- Ghhhhaaaaa!!

Tom, Val e Nico sairam em disparada, mas Rica, não. Entrou correndo dentro da sala. Quando estava na área de serviço, Tom gritou:

- O Rica ficou lá dentro. Não podemos deixá-lo. 

E voltou. Val e Nico atrás dele. Estavam apavorados, mas não podiam abandonar Rica para trás.

Quuando entraram na sala, viram outra  cena apavorante: Dona Geru ainda estava flutuando diante da janela, mas, desta vez,  com Rica debaixo dela. Na hora, eles pensaram que Dona Geru tinha agarrado Rica. Partiram para cima dela para salvar o irmão.Então, Rica gritou:

- Parem! Alguém aí, levanta aquela escada do chão.

 Foi, então, que eles notaram uma escada grande, dessas de alumínio, caída no chão.

- Rápido. Tragam a escada para perto de mim.

Enquanto falava isso, Rica não saia de perto de Dona Geru. Tom, então,notou que não era Dona Geru que agarrava Rica, mas Rica quem segurava a Dona Geru pelas pernas. Pegou a escada e levou para perto dos dois.

Dona Geru apoiou uma perna nas escada e Rica a soltou.

O caso, então, ficou esclarecido. Dona Geru estava  colocando uma cortina nova na sala. Subiu na escada para encaixar umas argolas no varão. Nessa hora, ouviu um ruído na cozinha e se virou para saber o que era. Eram os irmãos. Ao se virar, a escada caiu. Mas ela não : o capuz que sempre usava, ficou enroscado no varão . Ela ficou dependurada. E as crianças pensaram que estava fLutuando.

- O capuz , como é costurado nos ombros do roupão dela, não a estava enforcando. Mas apertava um pouco seu pescoço. Por isso, ela não conseguia falar para pedir ajuda. Sufocada, so podia dar aquele grito feio para chamar a atenção- explicou Rica.

- Ghaaaa! repetiu Nico.

Dada as explicações,  levaram dona  Geru , que estava ainda meio sem ar, para a cozinha. Ela, depois de tomar um copo de água , ficou mais calma. E agradeceu aos meninos.

- Se não fossem vocês chegarem, não sei o que seria de mim.

Eles notaram que ela era uma senhora simpática, de olhos claros, dentes bonitos.  De perto, nem de longe lembrava uma bruxa.

- Mas, afinal, o que vocês vieram fazer em minha casa?- perguntou ela.

Tom respondeu:

- A gente queria saber se foi a senhora quem pegou o telhado do presépio que estava no muro de nossa casa.

- Entendi- disse Dona Geru. Todo mundo no bairro fala sobre minha mania de pegar coisas por aí. Sabem por que faço isso?

Ela explicou: era uma pessoa pobre. Vivia de um dinheiro de uma pequena aposentadoria deixada por seu marido. Então, pegava algumas coisas na rua, que não serviam para os outros, mas podiam servir para ela. Guardava-as em um quartinho dos fundos da casa, para ser usada em caso de necessidade.

- O quartinho, mesmo, foi construído com os tijolos, a areia, o cimento  e outros materiais que fui juntando durante anos.

E a informação mais importante, Dona Geru deu a seguir: sim, ela tinha pegado o telhadinho do presépio. Eles podiam levar.

Depois, indo para casa, os Lorenos comemoravam mais um caso resolvido.

- Esse foi, até agora, nosso caso mais importante- disse Nico.

- Por que descobrimos onde estava o telhadinho do presépio?-,perguntou Val.

- Não.Porque descobrimos que Dona Geru não é uma bruxa- respondeu Nico

ELES SÃO REAIS

As personagens deste blog foram inspiradas nos netos do autor. Veja, nas imagens quem são eles.