Seu Lucas chegou do trabalho e anunciou a novidade:
-
Tem um circo na cidade.
-
Que bom! Disse Dona Lorena. Quando era pequena eu gostava muito de circo.
-
O que é circo? Perguntou Nico.
Seu
Lucas explicou: é um lugar onde são realizados espetáculos, com muitas atrações,
e geralmente é todo coberto por uma lona, como se fosse uma tenda gigante. E
para as crianças entenderem melhor, ele resolveu mostrar alguns espetáculo de
circo que tem na internet, principalmente no Youtube.
As
crianças ficaram encantadas e assistiram a vários vídeos. Nico estava fascinado
pelos palhaços. E decidiu:
-
Quando crescer, eu quero ser palhaço.
-
De um certo modo, você já é, com sua mania de fazer gracinhas- disse Vale.
Nico
não ligou para a gozação da irmã e perguntou ao pai se eles poderiam ir ao
circo. Seu Lucas disse que os levaria.
No
outro dia, quando saiam da escola, Ricardo fez uma proposta aos irmãos:
-
Vamos passar onde o circo está sendo montado?
Todos
concordaram na hora e foram para o terreno onde o circo estava sendo armado. Havia
uma grande movimentação no local, que estava cercado por aqueles carros que
parecem uma carroça, onde moram os artistas.
-
Esses carros são chamados de trailers- explicou Tomas.
Homens
iam para lá e para cá, trabalhando, carregando coisas,
Aproximando-se
do local, Rica chamou a atenção para o centro do terreno, onde havia muitos
trabalhadores juntos em volta de uma enorme lona no chão
-
Eles vão levantar a lona para montar o pavilhão- falou Tomas.
-
Como é grande- admirou-se Nico. Quando estiver montada, deve caber um milhão de
pessoas embaixo.
Resolveram
aproximar-se mais para ver o trabalho. Mas notaram que havia uma cerca de
madeira impedindo a entrada naquela área. Ficaram frustrados, olhando de longe.
Foi quando Tom viu que um garoto saía de dentro de um dos trailers. Decidiu
perguntar para ele como deviam fazer para entrar na área da lona.
-
Ei, menino!- gritou.
O
garoto tomou um susto. Deu meia volta para entrar de novo no trailer. Mas
esqueceu que tinha fechado a porta e deu uma trombada nela. Ficou meio zonzo,
saiu cambaleando, tropeçou e caiu em uma poça de água. A cena foi muito
engraçada e os irmãos começaram a rir.
Então,
o garoto saiu correndo e foi para trás do trailer. Nico foi atrás dele. Logo
depois, voltou correndo. Ouvia-se uns latidos e Nico enquanto corria, gritava,
assustado
-
O cachorro! O cachorro!
Os
outros três resolveram também sair correndo. Aí apareceu o cachorro mais esquisito do mundo. Pois ele
não tinha patas, movia-se apoiado em umas espécies de nadadeiras.
-
Aquilo não é um cachorro, é uma foca-notou, logo, Tom.
Então
eles pararam. Quando Nico, que corria logo atrás os viu pararem, olhou para
trás. E não viu a poça de água onde o menino do circo tinha caído momentos
antes e caiu nela também.
Os
irmãos caíram na risada. Então, apareceu o menino do circo, gritando:
-
Para, Timidão! Vem cá!
Timidão
deveria ser a foca, pois ela parou imediatamente e voltou para perto do garoto.
Então,
Tom, Rica, Vale e Nico aproximaram-se. O menino do circo preparou-se para
correr de novo. Aí, Tom perguntou:
-
Ela morde?
A
foca, que ia indo em direção do garoto, voltou e avançou para cima do Tom. Deu-lhe uma cabeçada na barriga, Tom se
desequilibrou e adivinha onde caiu? Na poça de água onde Nico e o garoto do
circo tinham caído antes.
Mais
gargalhadas do resto da turma.
Quando tudo se acalmou, o garoto do circo
aproximou-se dos irmãos, meio sem jeito, e pediu desculpas.
-
O Timidão não é bravo. Esses ataques dele não machucam, pois ele não morde, só
dá cabeçadas. E todo mundo pensa que é um cachorro, pois as focas também dão
latidos.
-
Se não é bravo, porque atacou o Tom?-perguntou Vale.
-
Porque ele chamou ele de ela. O Timidão se irrita com isso porque ele é macho,
não fêmea.
Os
irmãos acharam aquilo engraçado.
-
Toda foca é chamada de ela-disse Vale.
-Assim
como toda onça é chamada de ela, seja macho, seja fêmea- afirmou Rica.
-
Ninguém chama onça de onço; nem paca de paco, nem cobra de cobro- completou
Nico que, como sempre, gostava de exagerar nas explicações.
-
Eu sei, mas o Timidão não gosta que pensem que ele é mulher- explicou o garoto.
-
Só faltava essa, uma foca machista- observou Vale.
-
E você, porque se assustou tanto quando viu a gente?- perguntou Tom.
-
Ah, sou assim mesmo. Todo mundo no circo sabe que tenho um pouco de medo das
pessoas que não conheço.
-
Isso não é medo. É timidez- explicou Vale.
-
E é por isso que todos me chamam de Timidinho.
Ficou
explicado, então, porque a foca, fiel companheiro dele, era chamada de Timidão.
-
E o que você faz no circo?
-
Sou palhaço.
Aí
ninguém entendeu mais nada. Nico perguntou:
-
Como é que um palhaço pode ser tímido? Vocês não têm que ficar fazendo graça,
contando piadas, dando cambalhotas?
-
Mas quando estou vestido e pintado como palhaço, minha timidez vai embora.
Ninguém me conhece..
-
E você faz palhaçada sozinho?
-
Não. Trabalho com meu pai, que é o palhaço principal do circo, e com meu tio.
-
E como é seu nome de palhaço?
-
É Timidinho mesmo.
-
E o do seu pai?
-
Bofunhento.
Todos
deram risada.
-
O quer dizer isso?
-
Boboca, fuxiqueiro e fedorento.
Mais
gargalhadas. Os meninos estavam se divertindo muito no circo, sem mesmo estarem
assistindo a um espetáculo.
-
Você não está mais com medo da gente, né? Perguntou Tom.
-
Não. Depois dessa confusão toda, acabei me acostumando com vocês.
-
Bem, é melhor irmos embora, senão a mãe vai ficar preocupada com a nossa
demora- lembrou Tom.
Despediram-se
de Timidinho e foram para casa.
Quando
chegaram, Dona Lorena ficou impressionada com a sujeita nas roupas do Tom e do
Nico. Mas eles contaram a história toda e ela achou tanta graça que nem brigou
com eles. Mandou que tomassem banho e trocassem de roupa.
Nico
era o mais animado com a aventura. Quando Seu Lucas chegou do trabalho, depois
que eles contaram ao pai o que aconteceu, Nico
perguntou se poderia ser palhaço.
-
Quando você crescer, tudo bem. Mas agora tem de se preocupar em ir à escola e
estudar.
-
Mas eu não preciso ficar grande. O Timidinho tem a minha idade e já é palhaço.
Mas
é diferente – explicou Seu Lucas. O menino já nasceu no circo, sua família é de
circo, ele sempre viveu em circo. E no circo eles também têm uma escola para as
crianças estudarem.
Diante
da animação dos filhos, o pai prometeu que as levaria ao espetáculo de estreia
do circo, que seria na noite seguinte.
Promessa
feita, promessa cumprida. Na estreia do circo, lá estavam Dona Lorena, Seu
Lucas, Tom, Vale, Rica e Nico. Tudo era iluminado, colorido, movimentado. A
lona era coberta de lâmpadas coloridas. A entrada era um portão enorme com
luzes piscando. Ouvia-se por todo lado música animada, tocada por uma banda.
Quando
entraram, parecia que haviam entrado em um mundo mágico. Todas as pessoas,
tanto crianças, como adultos, sentiam logo uma grande alegria, sorriam, as
crianças batiam palmas, os adultos faziam comentários.
De
repente, as luzes se apagaram e só o picadeiro, um grande círculo no centro do
pavilhão, ficou iluminado. Houve um grande silêncio por uns segundos. A banda
começou a tocar uma marcha rápida e ouviu-se uma voz forte:
-
Senhoras e senhores! Vai começar o espetáculo!
A
música ficou mais intensa e animada. Teve início, então, o desfile dos
artistas. Dona Lorena explicou para os meninos que os espetáculos de circo sempre
começavam assim, com todos os artistas desfilando para a plateia.
Havia
malabaristas, gente fazendo ginástica, bailarinas; uns cavalos grandes,
enfeitados, montados por moças graciosas, e os palhaços.
-
Aquele lá deve ser o Timidinho! Gritou Nico, apontado para um palhaço pequeno
no meio de dois grandões. Todos usavam roupas coloridas, muito grandes, calças
frouxas, sapatos grandes e pontudos e as caras pintadas.
-
E aquele grandão deve ser o Bofunhento- completou Vale.
Depois
que o desfile acabou, o apresentador anunciou a primeira atração.
Eram
ginastas, duas mulheres e dois homens. Eles fizeram acrobacias incríveis. Davam
cambalhotas, saltavam uns por cima dos outros e no final formaram uma pirâmide
humana. Saíram bastante aplaudidos.
Depois,
vieram os malabaristas, jogando argolas, bolas, e bastões para o alto e
agarrando-os antes deles caírem. Também foram muito aplaudidos.
Então,
o apresentador anunciou:
-
E agora, a alegria do circo: os Bofunhentos!
Entraram
correndo e dando trombadas uns nos outros o Bofunhento pai, Timidinho e o outro
palhaço, primo dele.
Timidinho
estava com o rosto todo pintado, como um palhaço costuma ter, tinha um narigão
vermelho, calçava uns sapatos enormes, usava calças muito largas. Correndo
atravessou o picadeiro, mandando beijinhos para a plateia.
Depois,
voltou correndo de costas. Então, tropeçou e caiu em uma mini piscina de água.
Foi uma gargalhada só na plateia. O Bofunhento foi socorrê-lo, ajudando-o a
sair da piscininha.
Nessa
hora, ouviu-se alguém gritando:
_
O cachorro! O cachorro!
O outro palhaço, que havia saído por uns
instantes do picadeiro, agora voltava, trazendo uma foca presa a uma coleira.
Era o Timidão, também vestido quase como um palhaço. Ele latia alto.
Quando
os dois aproximaram-se do Timidinho e do Bofunhento, o palhaço disse.
-
Achei essa foca lá fora. Ela é de vocês?
Quando
ele falou “ela”, Timidão deu lhe uma cabeçada no bumbum. Ele saiu cambaleando,
trombou no Timidinho que trombou no Bofunhento e os três caíram na piscininha.
A
plateia morreu de rir e os três palhaços, junto com a foca, saíram correndo do
picadeiro.
-
Eles repetiram no espetáculo o que aconteceu com a gente ontem - lembrou Tom.
Então,
decidiram falar com Timidinho.
-
Não sei se vai ser possível- disse seu Lucas. Agora os artistas vão se trocar,
tomar banho, jantar e descansar.
-
Mas é só por um instante e o Timidinho é nosso amigo- implorou Nico.
O
pai, depois de consultar Dona Lorena, concordou e foram para a área dos
trailers. Ali havia grande arrumação, com os trabalhadores guardando os objetos
usados no espetáculo, fazendo limpezas, carregando coisas.
As
crianças sabiam onde ficava o trailer do Timidinho e foram direto para lá.
Quando se aproximaram, Timidinho, que ainda estava vestido de palhaço, os viu,
deu um grande sorriso e veio na direção deles.
- Meus amigos! Que bom que vocês vieram!
As
crianças o apresentaram a Dona Lorena e a Seu Lucas.
-
Vocês aproveitaram no espetáculo de hoje aquela confusão que fizemos aquele
dia- recordou Rica.
-
Contei a história para meu pai e ele achou muito engraçada. Então, resolveu
colocar no nosso número. Fez um sucesso grande, né?
-
Cadê o Timidão? Perguntou Vale.
-
Ele já está na casinha dele. Gosta de dormir cedo.
A
seguir, Timidinho quis apresentar os pais. Entrou no trailer e saiu,
acompanhado do pai (que já estava sem a roupa de palhaço) e da mãe. Era uma
mulher muito bonita e Vale lembrou que era uma das malabaristas que se apresentaram
no espetáculo.
- Essa aí é a dona Bofunhenta- disse Nico,
baixinho, para Rica.
-
Estamos fazendo um churrasco. Está quase pronto. Vocês não querem jantar com a
gente? .
Eles
aceitaram.
-
Querido- disse ela dirigindo-se ao Timidinho-vá tirar essa fantasia. Como eles
são seus bons amigos, não tem problema, não é?
-
Claro que não, mãe respondeu imediatamente Timidinho.
Pegou
no braço de Nico e convidou:
-
Vamos comigo até o camarim?
-
O que é isso? – indagou Nico.
-
É o lugar onde os artistas se arrumam. Vestem e tiram os uniformes e fantasias,
se pintam.
-
Nico concordou na hora. Ele, enfim, ia conhecer o camarim de um palhaço.
Passaram-se
uns dez minutos, e a mãe de Timidinho apareceu com uma travessa cheia de
pedaços de um cheiroso churrasco.
-
Precisamos chamar o Nico e o Timidinho antes da comida esfriar- disse Dona
Lorena.
Nem
tinha acabado de falar e apareceu o Timidinho. Sem nenhuma fantasia, o rosto
lavado. Aproximou-se de todos e gritou, como se fosse um apresentador de
espetáculo:
-
E agora, senhores e senhores, a nova alegria de nosso circo: o palhaço Assanhadinho.
E
vem correndo, dando cambalhotas, fazendo firulas, com um sorriso muito
aberto, o Nico, todo fantasiado, com
cara pintada, narigão, sapatões, calças frouxas.
Pelo
menos naquele dia ele havia realizado seu sonho de ser palhaço.

Nenhum comentário:
Postar um comentário